9 de mar de 2012

Visões Divinas, A poesia comparada de Gregório de Matos e Jorge de Lima

Como os dois grandes poetas veem Deus e a religiosidade, relacionam com esses conceitos e a própria espiritualidade e expõem em sua obra poética.

Vinício dos Santos*
O antagonismo é a existência: só é possível a criação de um conceito em oposição a outro, o que faz da contradição a base de todo pensamento. Como conceber a beleza sem ser afastando-a do horror? Como entender o certo, sem ter como ponto de partida o errado? O que é a escuridão, senão a completa ausência da luz, sua irmã oposta? O que seria da promessa do paraíso sem a ameaça do inferno?

Independente do pensamento, ele sempre se sustentará na diferença. Cada ponto ao qual o indivíduo se agarra gera ao mesmo tempo seu contraponto, aquele de que deve fugir. Neste jogo de atração e repulsa mútua, o homem torna-se uma simples peça, um ser incapaz de se defender de seus próprios impulsos.

Entretanto, pior do que participar diariamente do jogo de forças é ter plena consciência dele e de sua influência nas atitudes e pensamentos: entender o certo e o errado, o claro e o escuro, o correto e o pecado auxiliam o homem a lidar com os antagonismos na mesma proporção que o atormenta ainda mais, já que expõe suas fragilidades perante todo um sistema ao qual ele é capaz unicamente de resistir.


Neste sentido, a religiosidade avulta como a salvação, aquela que apaziguará o conflito interno graças à crença numa força superior. Contudo, a oferta da solução para o dilema através de bom comportamento perante as leis divinas acarreta justamente outro dilema: as novas concepções do certo e errado, agora de acordo com os preceitos religiosos. O homem escolhe Deus para salvá-lo, e Deus o oferece não a paz completa, mas todo um novo sistema a que ele deve se enquadrar para alcançar a tranquilidade.

Aqui, pretendemos analisar a relação de dois poetas com o pecado e a alternativa da religiosidade para sobreviver ao massacre dos antagonismos. Gregório de Matos (1636 - 1695) e Jorge de Lima (1893-1953), separados por quase três séculos, são de estilos absolutamente diferentes, mas cultivam a mesma angústia do pecado visível e irresistível, enquanto tentam se ancorar em Deus para apaziguarem seus tormentos.


Contrarreforma Católica

Foi um movimento da Igreja Católica que visou parar a expansão da Reforma Protestante, de Martinho Lutero. A Contrarreforma (ou Reforma) Católica iniciou-se com o Papa Paulo III, e depois foi estabelecida com o Concílio de Trento, em 1545. Seguindo as novas diretrizes da Igreja, em 1534, Inácio de Loyola fundou a Companhia de Jesus, que tinha o objetivo de levar os ensinamentos católicos para outras partes do mundo.

O BOCA DO INFERNO

O cenário do século XVII no mundo todo, marcado pela colonização das terras descobertas nas Américas, na África e na Ásia e também pela forte efervescência religiosa, causada pela reforma luterana e pela Contrarreforma Católica, transparece visivelmente no comportamento do homem seiscentista. Os valores harmônicos, de equilíbrio e clareza propagados pelo Classicismo caem por terra perante um mundo repleto de antagonismo, de conflitos e incertezas. O homem do século XVII depara-se com algo inédito até então: a consciência plena do tormento. 


É este jogo de conflitos e oposições que irá nortear toda a estética barroca do século XVII, movimento ligado ainda fortemente às concepções classicistas da arte - especialmente quanto à sua forma - mas que trata não da comunhão harmônica do indivíduo com seu meio e suas ideias, mas justamente do contrário: o que se encontra na arte barroca é a oposição, a luta eterna entre o certo e o errado, o amor e o ódio, o profano e o sacro, o céu e o inferno, todas forças que se digladiam no interior do homem, um mero palco indefeso.

A poesia sacra de Gregório de Matos é um grande expoente da conflituosa relação entre o homem e sua religião no século XVII





sermões do Padre Antonio Vieira
O poeta português Fernando Pessoa referia-se ao jesuíta Antônio Vieira (1608-1697) como "imperador da língua portuguesa", por causa de seus sermões que circularam impressos e pela fama de pregador de Vieira, no exercício de sua ordem religiosa. Seus sermões a princípio teriam sido impressos contra sua vontade, por seus superiores, como modelo de pregação. Mesmo contrário a sua vontade, Padre Vieira passou a organizá-los como forma de combater impressões não autorizadas, editadas em castelhano a partir de 1660, que circularam na península Ibérica e na Europa, e eram as versões lidas também nas Américas. Entre os 15 volumes publicados destacam-se os dois dedicados a Nossa Senhora do Rosário, e outro dedicado a S. Francisco Xavier. Ao total, são mais de 200 sermões que cobrem as décadas de 1630 a 1690, proferidos em Salvador, Lisboa, São Luís, Cabo Verde, Roma e outros lugares.
Neste contexto, a disputa religiosa da época é um fator preponderante na cisão do equilíbrio: atacada pela reforma luterana, a Igreja Católica enrijece seus dogmas através da Contrarreforma e institui a Inquisição, seu órgão responsável no combate direto daqueles contrários aos preceitos católicos. Com isso, tem-se intensificada a noção do pecado, a promessa do Paraíso e a ameaça irrefreável da condenação ao Inferno aos desobedientes. O homem que antes confiava em Deus como solução para suas agonias agora vê-se compelido a ampliar e endurecer sua fé, sob a sugestão da pena severa da danação eterna. 

A poesia sacra de Gregório de Matos é um grande expoente da conflituosa relação entre o homem e sua religião no século XVII.

O poeta pecava e tinha consciência disso, pois o conforto de suas culpas, dos erros, da perversidade, muito bem expressos na sua poesia, residia no arrependimento final à beira da morte, quando assinaria a sua adesão ao Senhor, que no derradeiro instante tem graças infinitas para conceder aos mortais a completa remissão das culpas. (SPINA, 1995:63).

Assumindo-se como um pecador irremediável, ao poeta cabe unicamente implorar a misericórdia infinita de Deus, que perdoará seus pecados e assim lhe trará a paz que a vida açoitou. O poema escolhido para análise, "A Jesus Cristo Nosso Senhor", é um exemplo da aflição do poeta perante seus erros e seu temor pela condenação:

A JESUS CRISTO NOSSO SENHOR 
  
Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a voz irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história,
Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
(MATOS, 1989: 297)

Segundo a biografia de Gregório de Matos, tal poema foi escrito às vésperas de sua morte. Tem-se, portanto, uma espécie de última confissão a Deus, o balanço final da vida do poeta. Vida esta marcada evidentemente pelo pecado e pela transgressão, da qual o autor se arrepende profundamente às portas do fim, assumindo-se como um pecador: "Pequei, Senhor".

Inserido na estética barroca, o poema lança mão de diversos de seus elementos. Retomando a concepção de que o movimento Barroco  supunha-se uma continuação do Classicismo - e não uma nova escola - nota-se a forma clássica de soneto decassílabo, de rimas ABBA/ABBA/CDE/CDE, de inspiração camoniana.

Por outro lado, a temática abordada difere radicalmente dos ideais clássicos: não há qualquer forma de equilíbrio na confissão de Gregório de Matos, mas unicamente tormento do pecado e a esperança da salvação. Avulta, devido a isso, um dos sustentáculos do Barroco, o gosto pelas oposições, na forma de antíteses e paradoxos disseminados por todo o poema: a oposição entre o "pecado" do homem e a "clemência" divina, a relação direta entre os erros do poeta e o empenho de Deus em perdoá-lo, a ovelha que se perde e é reencontrada, são todos sinais da dualidade do homem, que deixou de ser uno e tenta restabelecer sua integridade clamando a Deus.

É importante reconhecer no poema de Gregório de Matos a fusão entre as duas vertentes da estética barroca: o conceptismo - a argumentação lógica, tão evidente nos sermões do Padre Antônio Vieira - e o cultismo - a poesia com finalidade última de beleza. Ao mesmo tempo em que cria um painel de oposições enriquecido pelo rebuscamento da linguagem - é perceptível a aliteração de /s/ ao longo dos versos para efeito de musicalidade - o poeta arquiteta um plano racional para convencer Deus a perdoá-lo: invocando a Sua infinita misericórdia, Gregório de Matos de certa forma desafia Deus a perdoar alguém com tantos pecados, confiando assim na bondade suprema tão antagônica a seus erros: "Porque quanto mais tenho delinquido/ Vos tenho a perdoar mais empenhado".

Mais adiante, o poeta resgata a parábola bíblica da ovelha desgarrada e se compara a ela: "Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada". Novamente, Gregório de Matos se assume como pecador e implora a misericórdia divina, mas o faz de maneira bastante dúbia e aberta a interpretações, especialmente nos dois últimos versos da estrofe: 

Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória. 

Se por um lado é nítido o pedido de clemência para que Deus não o abandone, não deixe para trás aquela ovelha perdida, por outro o poeta parece provocar a Deus, relacionando a sua salvação a manutenção do poder divino sobre todas as coisas: perdoá-lo seria, portanto, uma manifestação natural de Seus poderes, e negar tal perdão colocaria em cheque a misericórdia divina, que supostamente é infinita e deveria recair sobre todos aqueles arrependidos. Sob esta visão, Gregório de Matos busca usar contra Deus suas próprias leis, a fim de obter o perdão e a tranquilidade eterna. 

JORGE DE LIMA

O tormento da dualidade jamais abandonou a humanidade. Independentemente da época ou do meio, o homem sempre está imerso num mundo de antagonismo: o que torna diferente cada momento são as forças duelantes - amor e ódio, modernidade e tradição, pecado e perdão - e o fator no qual o indivíduo irá se sustentar em busca da estabilidade. O século XX não deixou de afligir o homem, pelo contrário, ampliou as dualidades e tornou sutis seus limites.




movimento Barroco
Na literatura, o Barroco foi o primeiro estilo de época no Brasil, iniciado em 1601, com a publicação do poema épico 'Prosopopeia', de Bento Teixeira. Foi o movimento artístico mais importante do período colonial e estendeu-se por todo o século XVII e início do XVIII No Barroco literário destacaram-se dois estilos: Cultismo - linguagem rebuscada, culta; teve forte influência do espanhol Luís de Gôngora (sendo o Barroco, no caso, um sinônimo de gongorismo, palavra derivada do nome do escritor espanhol); Conceptismo - caracterizado pelo jogo de ideias, de conceitos, seguindo um raciocínio lógico, racionalista, usando uma retórica aprimorada.
O resultado de tal situação é que, se antes o homem podia antever claramente seus inimigos, a incerteza da vida moderna irá proporcionar a distensão dos conceitos, tornando ainda mais difícil conviver com os conflitos, que agora são menos palpáveis mas não menos perigosos.

Ao diluir as fronteiras, a Modernidade dilui também as oposições, relegando ao próprio indivíduo a sua ideia de opostos: vive-se, assim, uma era de incertezas, em que nada mais é exato e seguro, nem mesmo o certo e o errado podem ser definidos claramente, transformando-se em conceitos individuais.

O movimento Modernista surge para explorar a pluralidade humana. Há a quebra sem retorno da verdade única em prol da verdade múltipla, dos diferentes pontos de vista, todos aceitáveis. Para tanto, basta abordar um dos pilares da estética modernista, o Cubismo, para verificar como a arte se relaciona a percepção plural da realidade e não mais a visões presas a algum esquema. Na esteira do movimento, o Surrealismo corrobora a abstração, o Dadaísmo satiriza e arrasa as certezas, enquanto o Futurismo glorifica a vida moderna das máquinas, do progresso incessante que culmina o homem de infinitas faces.

O conflito moderno é, de certa forma, compreender e estabelecer o próprio conflito. Com o fim das rochas inabaláveis do bem e mal, o homem encontra-se órfão da dualidade e perdido na pluralidade. Desorientado, resta a ele agarrar-se a alguma forma ainda existente de certeza, seja ela qual for.

A alternativa de Jorge Lima é a religião. Solitário num mundo amplo demais, o poeta se apega à onipotência de Deus para encontrar um sentido à vida e, de alguma forma, estabelecer parâmetros dentro dos quais possa se situar. Ao ligar-se a Deus, o poeta automaticamente constrói seus limites de bem e mal, ancorado nos preceitos daquilo que deve realizar e dos pecados que deve evitar. Cria-se, desta forma, uma dualidade que embora atormente o indivíduo, é melhor do que a angústia da incerteza.

A partir do poema abaixo, busca-se analisar o envolvimento do poeta com Deus, como alternativa de sobrevivência num meio completamente instável.

POEMA DO CRISTÃO

Porque o sangue de Cristo
jorrou sobre os meus olhos,
a minha visão é universal
e tem dimensões que ninguém sabe.
Os milênios passados e os futuros
não me aturdem, porque nasço e nascerei,
porque sou uno com todas as criaturas,
com todos os seres, com todas as coisas
que eu decomponho e absorvo com os sentidos
e compreendo com a inteligência
transfigurada de Cristo.
Tenho os movimentos alargados.
Sou ubíquo: estou em Deus e na matéria;
sou velhíssimo e apenas nasci ontem,
estou molhado dos limos primitivos,
e ao mesmo tempo ressôo as trombetas finais,
compreendo todas as línguas, todos os gestos, todos os signos,
tenho glóbulos de sangue das raças mais opostas.
Posso enxugar com um simples aceno
o choro de tantos irmãos distantes.
Posso estender sobre todas as cabeças um céu unânime e estrelado.
Chamo todos os mendigos para comer comigo,
e ando sobre as águas como os profetas bíblicos.
Não há escuridão mais para mim.
Opero transfusões de luz nos seres opacos,
posso mutilar-me e reproduzir meus membros, como as estrelas do mar,
porque creio na ressurreição da carne e creio em Cristo,
e creio na vida eterna, amém!
E, tendo a vida eterna, posso transgredir as leis naturais:
a minha passagem é esperada nas estradas;
venho e irei como uma profecia,
sou espontâneo como a intuição e a Fé.
Sou rápido como a resposta do Mestre,
sou inconsútil como a Sua túnica.
sou numeroso como a sua Igreja,
tenho os braços abertos como a sua Cruz despedaçada e refeita
todas as horas, em todas as direções, nos quatro pontos cardeais;
e sobre os ombros A conduzo
através da escuridão do mundo, porque tenho a luz eterna nos olhos.
E tendo a luz nos olhos, sou o maior mágico:
ressuscito na boca dos tigres, sou
palhaço, sou alfa e ômega, peixe, cordeiro, comedor
[de gafanhotos, sou ridículo, sou tentado e perdoado, sou [derrubado no chão e glorificado, tenho mantos de púrpura [e de estamenha, sou burríssimo como São Cristóvão, e [sapientíssimo como Santo Tomás. E sou louco, louco, [inteiramente louco, para sempre, para todos os séculos, [louco de Deus, amém!
E. sendo a loucura de Deus, sou a razão das coisas, a ordem e a medida;
sou a balança, sou a criação, a obediência;
sou o arrependimento, sou a humildade;
sou o autor da paixão e morte de Jesus;
sou a culpa de tudo.
Nada sou.
Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam!
(LIMA, 1974:24)

oração do Credo
Embora o texto do Credo Apostólico, o mais conhecido dos credos, seja bem antigo, crê-se atualmente que ele alcançou a forma definitiva por volta do sexto século da Era Cristã, quando são encontrados registros do seu emprego na liturgia oficial da igreja ocidental. A oração é atribuída pela tradição aos doze apóstolos de Cristo, porém, dizem os estudiosos que ela se desenvolveu a partir de pequenas confissões batismais empregadas nas igrejas cristãs dos primeiros séculos. O Credo Apostólico, assim como os Dez Mandamentos e a Oração Dominical, foi anexado, pela Assembléia de Westminster, ao Catecismo.
Mais do que um poema que exulta as qualidades divinas, Jorge de Lima elabora um quadro de como ele se ancora nestas qualidades, e assim consegue enfrentar seu mundo. O sangue que acertou-lhe o olho conferiu-lhe a habilidade de enxergar além da superfície, a sabedoria necessária para buscar a harmonia perante o meio desarrumado. A enumeração de contradições presentes no poema está ligada ao poder de Deus de unificar todas elas: ser velho e novo, ser do limbo e ouvir as trombetas finais, ter no sangue todas raças, tudo é permitido para aquele que crê em Deus.

A unidade é a solução das angústias do poeta. A inteligência de Cristo permite que ele se una "com todos os seres, com todas as coisas", e assim "os milênios passados e os futuros/ não me aturdem". A fé em Deus proporciona o controle das dualidades e dissolução delas, não em milhares de pedaços, mas num corpo único. O poeta, assim, se afirma a "túnica inconsútil", o tecido sem retalhos, a unidade sem temores.

A fé em Deus proporciona o controle das dualidades e dissolução delas, não em milhares de pedaços, mas num corpo único

Num exercício exemplar do Modernismo, o poeta lista em seus versos livres e brancos, como numa prosa, tudo aquilo que sua crença permite que ela seja: 

sou palhaço, sou alfa e ômega, peixe, cordeiro, comedor [de gafanhotos, sou ridículo, sou tentado e perdoado, sou [derrubado no chão e glorificado, tenho mantos de púrpura [e de estamenha, sou burríssimo como São Cristóvão, e [sapientíssimo como Santo Tomás. E sou louco, louco, [inteiramente louco, para sempre, para todos os séculos, [louco de Deus, amém!

São Cristóvão

Apesar de ser um dos santos mais populares, e a Igreja Católica aprovar a devoção a ele, listando-o entre os mártires romanos venerados em 25 de julho, ela removeu seu dia festivo do calendário católico de santos em 1969. Argumenta-se que quase nada de histórico é conhecido sobre a vida e a morte de São Cristóvão, apesar de que várias lendas são atribuídas a ele.
Mais do que a dualidade, a pluralidade do mundo é dissolvida na figura de Deus, aquele capaz de sublimar todas as diferenças. Junto a Deus, o poeta pode ser tentado e perdoado, inteligente e incapaz, louco e são. Como dito anteriormente, o apego a Deus gera ao mesmo tempo a obrigação da fuga aos pecados. Nos últimos versos, o poeta se reconhece como um pecador, o autor da morte de Cristo, a culpa de tudo. Lamenta, assim, a sua existência impura e admite não ser nada, absolutamente nada sem Deus. O clamor final de misericórdia é ao mesmo tempo a busca do perdão pela fraqueza inerente quanto o pedido pela ajuda divina, a única capaz de solucionar a aflição terrena do homem.

Gregório de Matos se reporta à parábola da ovelha desgarrada como metáfora de sua própria vida

AS SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS

Embora distanciados por perto 300 anos, os poemas de Gregório de Matos e Jorge de Lima apresentam diversos pontos de contato, bem como fatores de distanciamento. Inicialmente, é possível perceber várias semelhanças no campo estético: ainda que filiados a movimentos bastante díspares - a forma fixa e rígida do Barroco em nada se aproxima a liberdade dos versos livres modernos - os poetas lançam mão dos mesmos recursos na composição: é nítido o uso recorrente de antíteses e paradoxos nos dois casos, especialmente no poema de Jorge de Lima, construído de maneira bastante paradoxal. Outro ponto de contato entre ambos é o uso de referências bíblicas nos poemas: como visto anteriormente, Gregório de Matos se reporta à parábola da ovelha desgarrada como metáfora de sua própria vida. Jorge de Lima, por sua vez, preenche os versos com inúmeras referências, das quais podem-se ser citadas a menção a São Longuinho nos primeiros versos (um soldado romano cujos olhos foram salpicados pelo sangue de Cristo na cruz), às vidas de São Cristóvão e São Tomás, aos inúmeros símbolos religiosos como o cordeiro, o peixe, alfa e ômega, e até mesmo a inserção de um trecho ligeiramente modificado da oração do Credo  na passagem "porque creio na ressurreição da carne e creio em Cristo, / e creio na vida eterna, amém!"

O uso das antíteses está diretamente ligado ao plano temático de ambos os poemas, onde surgem os pontos de dissonância. Nos dois casos, as oposições estão ligadas à ideia da dualidade e do tormento, mas em cada poema isto se explica por motivos diferentes. Em "A Jesus Cristo Nosso Senhor", o conflito dá-se entre a existência pecaminosa do poeta e a pureza e a misericórdia divina, podendo ser estendida para a oposição entre a fragilidade da vida terrena e a superioridade da vida espiritual. Por outro lado, o poema de Jorge de Lima abraça as oposições como exemplos da força divina, capaz de apaziguar todas as diferenças e proporcionar a tranquilidade a quem tem Fé.

Tal situação ocorre justamente pelas concepções diferentes da crença em Deus por parte dos poetas: Gregório de Matos é um homem dos tempos da Contrarreforma, do pavor da condenação ao Inferno pelos erros terrenos; suas súplicas a Deus têm o intuito do perdão transcendente, isto é, que o salve da danação. O dado biográfico de que este poema foi escrito à beira da morte corrobora a suposição de que o poeta não estava interessado em seguir os mandamentos de Deus e assim levar uma vida moralmente correta, mas em livrar-se da condenação. O jogo de argumentos utilizado por ele em sua defesa não coíbe a veracidade de seu arrependimento, mas abre caminho para o pensamento de que o poeta preocupava-se muito mais com a ira de Deus depois de sua morte do que com a obediência às suas leis em vida.



História de Antônio Vieira, de J. L. Azevedo, Editora Alameda, São Paulo, 2008.
O que é exatamente o oposto da concepção de Jorge de Lima da religiosidade e de Deus. Em seu poema, nota-se claramente um esforço para apaziguar os conflitos internos e assim conduzir a vida da maneira como Deus deseja, "como se o poeta cultivasse uma espécie de neobarroquismo que quase consegue a harmonização dos seus componentes contraditórios" (CANDIDO, 1975: 195). Assumindo-se como um pecador frágil, o poeta suplica a Deus não para salvá-lo do Inferno, mas para ajudá-lo a direcionar suas atitudes conforme os preceitos divinos. A preocupação de Jorge de Lima é superar sua condição de homem ruim para agradar a Deus em vida.

O apelo a Deus feito por ambos os poetas é, portanto, radicalmente diferente. Ambos são atormentados, mas é possível afirmar que o tormento de Gregório de Matos está ligado praticamente a seu medo de punição do que a sua vontade de não errar. Jorge de Lima, por sua vez, não fala em momento algum de castigo, mas sempre no poder superior de Deus de sublimar as diferenças.

Mesmo separados por centenas de anos, Gregório de Matos e Jorge de Lima são simultaneamente sinais de seus tempos - o fulgor religioso do século XVI e a incerteza incompleta do século XX - e poetas únicos. Os poemas analisados exibem com grandiosidade como ambos se apegaram à religião, motivados por seus contextos e por suas características individuais. Mais do que dois belos poemas, o que a literatura registrou é também que a angústia do homem puxado por forças que ele não controla, e que imergem de dentro dele próprio, perdura pelo espaço e o tempo, sem cessar.
 
* Vinício dos Santos é formado em Letras pela Unesp/Araraquara, com mestrado em Linguística Textual pela mesma instituição. Atualmente, trabalha como professor de inglês. Escreve para o blog de humor Puxa Cachorra. vinicio_santos@hotmail.com

SANTOS, Vinício. Visões Divinas, A poesia comparada de Gregório de Matos e Jorge de Lima. Revista Literatura. Disponível em: http://literatura.uol.com.br/literatura/figuras-linguagem/41/artigo252470-5.asp. Acesso em: 09/03/2012.

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