19 de jun de 2010

ROMANTISMO


Coração bate de novo no compasso da serenata...

As cenas são centenárias, mas não há quem não sonhe ser a mocinha ou o mocinho que cruzam olhares no embalo de uma serenata, que tenham nos olhos o reflexo da chama amarelada das velas sobre a mesa de jantar e que, emocionados, molhem o sorriso com lágrimas na entrega da rosa.
 
O comportamento parece ridículo, mas também não há quem não sonhe em ficar sentado horas esperando o telefone tocar para, depois, relembrar palavra por palavra dada do outro lado da linha; escrever frases bregas no cartãozinho mais brega ainda (e achar um exemplo de bom gosto e originalidade); ficar sem fome (ou comer demais); ouvir música (melosa) sem descanso e perder o maior tempo imaginando os passos do outro.


Não há quem não queira ser o motivo da “loucura” e da inspiração (mesmo desastrada) para o versinho que vem assinado pelo Chuchu, pelo Fofo ou pela Gatinha – apelidos que fazem o resto do mundo cair na gargalhada e ele(a) se sentir realmente fofo, um chuchu ou uma gatinha. Os últimos românticos ganharam milhões de companheiros. O romantismo sobreviveu a todas as formas de revoluções de comportamento. Ele pode ter emprestado as vestes da modernidade, mas, despido, ainda tem as velhas formas que emocionam todas as gerações. Não há como negar. Não há quem não queira ser o Te do Eu te amo.
GUERREIRO, Márcia. O Estado de S. Paulo, 12 jun. 1994.

ESTUDO DO TEXTO

1. No primeiro e segundo parágrafos, citam-se hábitos e atitudes que identificam o comportamento romântico. Quais?


2. Os verbos sonhar e imaginar referem-se a comportamentos:

a) próximos da realidade concreta e relacionados ao tempo presente.

b) distanciados da realidade concreta e relacionados ao futuro ou ao passado.

3. No terceiro parágrafo afirma-se que é mais importante:

a) ser autor de versinhos para o outro.

b) ser inspirador de versinhos assinados pelo outro.


4) Na opinião da jornalista:

a) a essência do romantismo é a mesma de outros tempos embora a aparência seja outra.

b) o romantismo de hoje não é o mesmo de antigamente.

c) os apaixonados de hoje apresentam um comportamento afetivo inédito.

d) a aparência do romantismo é a mesma, mas a essência mudou.


5) Resuma, com suas palavras, a ideia principal do trecho: “O romantismo sobreviveu a todas as formas de revoluções de comportamento. Ele pode ter emprestado as vestes da modernidade, mas, despido, ainda tem velhas formas que emocionam todas as gerações”.

Comentário: O texto lido foi escrito em 1994, final do século XX, portanto. Nele, a jornalista trata de uma forma de comportamento – o romantismo – que sempre existiu e faz parte da própria história do homem. Esse romantismo tem sentido mais amplo que o Romantismo, estilo de época.
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ROMANTISMO 
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A liberdade guiando o povo, pintura de Delacroix, de 1830. Essa obra foi inspirada nos acontecimentos políticos do mesmo ano em que foi feita, na França, quando o rei Carlos X assinou decretos que visavam trazer de volta o absolutismo. O pintor retratou a reação violenta da burguesia. Observe que a figura central do quadro é uma alegoria da liberdade, conceito extremamente cultivado pelos românticos.
 
O Romantismo está relacionado a dois acontecimentos que mudaram a face da Europa: a Revolução Industrial e a Revolução Francesa, responsáveis pela consolidação da burguesia, que infiltrando-se na aristocracia (grupo social com grande poder econômico e político), começou a dominar a vida política, econômica, cultural e social.
 
O absolutismo cedeu lugar ao liberalismo, corrente filosófica fundamentada na crença da capacidade individual do homem. Por isso, o individualismo tornou-se um valor essencial para a sociedade da época.

A Revolução Industrial, por sua vez, gerou novos inventos com o objetivo de solucionar os problemas técnicos decorrentes do aumento de produção, provocando a divisão de trabalho e o surgimento da mão-de-obra especializada.

Se de início os artistas que se denominavam românticos aceitaram as ideias da burguesia, mais tarde demonstrariam descrença e frustração diante da realidade forjada pelo espírito burguês. Por isso o Romantismo apresenta, às vezes, características contraditórias.
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Os sofrimentos do Jovem Werther, publicado em 1774, escrito pelo alemão Johnn Wolfgang von Goethe, quando tinha 24 anos, foi, sem dúvida, o maior acontecimento literário do século XVIII, vindo a se tornar o primeiro Best-seller da literatura européia e o maior sucesso do autor. 

O livro é o considerado o marco inicial do Romantismo e tem caráter autobiográfico, fruto do seu amor por Charlotte Buff, esposa de Christian Kestner.

Ao contrário de Werther, Goethe não cometeu suicídio, mas se inspirou em jovem universitário. Napoleão confessou a Goethe em 1808 que havia lido o livro sete vezes, e até hoje é um dos 100 livros mais lidos do mundo.

 As palavras de Goethe foram tão profundas que muitos jovens sensibilizados com a história começaram a imitar Werther seja na roupa típica, casaca azul, colete e calções amarelos, ou nos atos culminando no suicídio, uma vez que sem a pessoa amada não valeria a pena viver. Não foram poucos os casos de suicídios na Europa.

O tema do livro é a paixão, mas não a paixão disciplinada, comportada, condizente com os padrões e regras vigentes àquela época. Toda a história é narrada pelo próprio Werther, em forma de cartas que Goethe afirma ter encontrado, publicando-as para honrar a vida do jovem Werther, dessa forma, nos dá a impressão de estar tomando posse do diário secreto de um sofredor, sem esperança e que amou até a morte .

“Só Deus sabe quantas vezes mergulho no sono com a esperança de nunca mais despertar; e, pela manhã, quando arregalo os olhos e torno a ver o sol, sinto-me profundamente infeliz. Oh! Se eu pudesse mudar de humor, entregar-se ao tempo, a isto ou àquilo, ao insucesso de uma iniciativa qualquer, ao menos o fardo dos meus aborrecimentos não pesaria tanto. Que desgraçado que sou! Sinto-me perfeitamente o único culpado...Não, não sou culpado, mas é em mim que está a fonte de todos os meus males, como outrora a fonte de toda a minha felicidade. Não serei mais o homem que então nadava num mar de rosas, e a cada passo via surgir um paraíso, e cujo amor era capaz de abranger o mundo inteiro? Mas o coração que assim pulsava está morto, não produz mais os arrebatamentos de outros tempos; meus olhos, agora secos, não se refrescam mais de lágrimas benfazejas, e a angústia abafa os meus sentidos, contrai e enruga a minha fronte. 

Aumenta o meu sofrimento verificar que perdi aquilo que fazia graças à qual podia criar mundos e mundos em torno de mim. Essa força não mais existe! Quando contemplo, da minha janela, o sol matutino rasgar a bruma sobre a colina distante, iluminando a campina silenciosa no fundo do vale, e vejo o riacho tranqüilo correndo para mim e serpenteando entre os salgueiros desfolhados, essa natureza me parece fria e inanimada como uma estampa colorida. Todos esses encantos não me podem fazer subir do coração ao cérebro a menor sensação de felicidade, e todo o meu ser permanece perante Deus como uma fonte estancada, como uma ânfora vazia!”.

GOETHE, Johann Wolfgang Von. Os sofrimentos do jovem Werther.
Trad. Galeão Coutinho.São Paulo: Abril. P.110.

Exercícios

1. O romântico vive mergulhado no seu mundo interior, num subjetivismo tão intenso que se torna sensível ao mundo exterior. Essa característica aparece no trecho citado. Explique-a.

2. Que outras características românticas você reconhece nesse trecho?
 
É necessário fazer uma distinção entre os temos romantismo e Romantismo.

A palavra romantismo designa uma maneira de se comportar, de agir, de interpretar a realidade. O romantismo sempre existiu e caracteriza-se pelo devaneio, por uma atitude emotiva diante das coisas, atitude responsável pela mais extrema rebeldia e por profunda melancolia. Esse comportamento, chamado romantismo, pode ocorrer em qualquer época da história. É nesse sentido que se fala, hoje, em música romântica, cinema romântico, telenovela romântica.

Como movimento histórico, o Romantismo surgiu na Alemanha e na Inglaterra no final do século XVIII e predominou na primeira metade do século XIX. Em Portugal, a partir de 1825. No Brasil, o estilo teve início com uma obra publicada em 1836.

Nesse caso, o termo Romantismo designa uma tendência geral da vida e da arte, um estilo que predominou 
num determinado tempo.
 
Tendo surgido na Alemanha, o movimento romântico conquistou a Inglaterra, a França e, posteriormente, todos os países europeus, de onde se difundiu para a América.
Não se pode imaginar que o Romantismo tenha sido uniforme. Foi um estilo rico, diversificado e muitas vezes contraditório.
Três componentes resumem o processo criativo dos românticos: paixão, emoção e liberdade, todos relacionados a uma subjetividade tão forte como nunca se tinha notado na arte ocidental.
Dessa subjetividade decorrem as características básicas dos textos românticos.
  1. Liberdade de criação
Mais que uma característica, trata-se de uma postura diante da arte e da vida. Se no Classicismo e no Arcadismo a norma era a imitação da arte greco-romana, considerada como modelo, no Romantismo o escritor rejeita qualquer modelo e procura expressar-se por uma atitude pessoal, individual, que pretende ser única. Para os românticos, expressar-se significa exprimir sua personalidade, independentemente de quaisquer regras.
Esta característica só pode ser observada se compararmos um texto romântico com textos que se enquadram nos estilos de época anteriores ao Romantismo.

2. Sentimentalismo
 
Enquanto o artista clássico analisa e expressa a realidade sobretudo através da razão, o romântico vale-se dos sentimentos. Por isso, é o sentimento de cada um que define a importância ou não das coisas.

3. Supervalorização do amor

É a conseqüência mais imediata do sentimentalismo. O amor é considerado como a coisa mais importante da vida, em flagrante oposição ao valor mais cultivado pela burguesia: o dinheiro. Perder o amor significa perder o sentido da vida. Essa perda provoca basicamente três conseqüências: a loucura, a morte ou o suicídio, situações comuns em epílogos de romances românticos.

4. Idealização da mulher

A mulher – objeto do amor romântico – é divinizada, cultuada, pura, aparecendo às vezes envolta numa atmosfera de mistério.

5. Mal-do-século

A palavra é uma tradução aproximada do texto spleen, que surgiu na Inglaterra e esteve em moda em toda a Europa no período romântico.

O mal do século origina-se basicamente de dois fatores. Um deles é a ideia aceita pelos românticos de que o espírito humano busca sempre a perfeição, a totalidade, o absoluto, o infinito. No entanto, sendo humanos, somos incapazes de atingir esse estado. A constatação dessa impossibilidade gera a angústia que caracteriza o mal do século. Outro fator é o desajuste do indivíduo na sociedade burguesa, que se revelava muito prática e objetiva, em oposição ao sentimentalismo exacerbado dos românticos. Desse desajuste social resultam:

a) pessimismo em relação à sociedade e a si mesmo;

b) prazer em sentir-se melancólico e sofrido;

c) busca do isolamento, da solidão.

Procurando saídas para esse desequilíbrio, as personagens de obras românticas desenvolvem mecanismos de evasão da realidade.

6. Evasão

A evasão no tempo conduz a imaginação do escritor e da personagem romântica ao passado histórico de seu país ou ao passado individual de cada um (infância e adolescência).

Na volta ao passado histórico, o romântico europeu vai redescobrir a Idade Média, que ele idealiza como sendo uma época de estabilidade política e social. Tipos medievais como o cavaleiro das cruzadas e os monges reaparecem nas obras do Romantismo como personagens-símbolo dessa época.

Na Idade Média o escritor romântico europeu encontra também as origens de cada nação. Desse processo resulta o nacionalismo, uma das mais importantes características da literatura romântica.

A religiosidade, especialmente a proposta pelo cristianismo medieval, também se recupera nos textos românticos como conseqüência dessa volta ao passado.

Portanto, da volta ao passado histórico resultam as seguintes características observáveis em textos românticos:

a) recuperação da cultura medieval, no Romantismo europeu;

b) exaltação da nacionalidade (nacionalismo), como idealização do povo, dos heróis nacionais, da paisagem física;

c) religiosidade, de preferência aquela derivada do cristianismo.

Já no plano individual, o romântico volta-se para a sua infância ou adolescência, que é valorizada como um período seguro, sem preocupações, repleto de pureza e inocência.

A criança e o selvagem são vistos como modelos de inocência, pureza e bondade, porque ainda não teriam sido corrompidos pela sociedade.

Da volta à infância decorrem duas características dos textos românticos;

a) saudade e supervalorização da infância;

b) supervalorização do homem em estado selvagem.

A evasão no espaço conduz a imaginação romântica – tanto de autores quanto de personagens – para paisagens novas, estranhas e primitivas.

A natureza é concebida como um espaço ainda não corrompido; por isso, é sempre descrita como um espetáculo grandioso e tida como local de refúgio para o solitário.

Decorrem daí, no texto romântico:


a) exaltação da natureza;

b) valorização da natureza como refúgio seguro e sereno.

Outra maneira de evasão no tempo e no espaço é refugiar-se no sonho, no devaneio, verdadeiros substitutos para a vida real.

Finalmente, o mais radical e definitivo de todos os processos de escapismo: a espera ou a evocação da morte.

7. Escolha dos heróis grandiosos
 
O romântico exalta personagens históricas que foram incompreendidas em sua época. A obra que inaugura o Romantismo português, por exemplo, é um longo poema narrativo sobre a vida de Camões, poeta renascentista que viveu miseravelmente.

8. Aceitação do mistério

O romântico admite a ocorrência de fatos inexplicáveis, fantásticos, sobrenaturais e os incorpora em suas obras.

Exercício

1. Leia os trechos seguintes e identifique a(s) característica(s) romântica(s) que ocorre(m) em cada um, entre as indicadas no quadro:

Subjetivismo – sentimentalismo – exaltação da natureza – natureza concebida como refúgio – incorporação de fatos misteriosos – religiosidade – valorização da infância – idealização da figura feminina – pessimismo – valorização do passado – nacionalismo – atração pela morte – valorização do homem em estado selvagem

a) Feliz a inteligência vulgar e rude, que segue os caminhos da vida com os olhos fitos na luz e na esperança postas pela religião além da morte... (Alexandre Herculano)

b) Brilha a lua no céu, brilham estrelas,
Correm perfumes no correr da brisa,
A cujo influxo mágico respira-se
Um quebranto de amor, melhor que a vida! (Gonçalves Dias)

c) Oh! Dias da minha infância!
Oh! Meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã! (Casimiro de Abreu)

d) Creio em Deus, amo a pátria, e em noites lindas
Minh’alma – aberta em flor – sonha comigo. (Casimiro de Abreu)

e) Por mim, não conheço objeto mais lindo em toda a natureza, mais feiticeiro, mais capaz de arrebatar o espírito e inflamar o coração do que é uma jovem donzela quando ao modéstia lhe faz subir o rubor às faces e o pejo lhe carrega brandamente nas pálpebras... (Almeida Garret)

ROMANTISMO EM PORTUGAL
Só Deus! (1856), de Medrass. Espécie de emblema do Romantismo português, esse quadro aborda de modo sentimental e dramático o tema da morte (talvez suicídio) de uma mãe que se lança às águas com o filho.

O Romantismo em Portugal apresenta em sua evolução dois momentos significativos. O primeiro deles representa o esforço de se firmar como movimento literário apoiado pela cultura popular, no nacionalismo, na busca das origens medievais do país, enquanto o segundo constitui um momento de maturidade e de transição para o Realismo.

 
Como no resto da Europa, o Romantismo surgiu em Portugal num período de efervescência política – alguns anos após a revolução de 1820 que levou os liberais portugueses ao poder.

Participaram dessa revolução vários setores da burguesia portuguesa, nos quais se incluíam magistrados, comerciantes, militares, professores. Influenciados pelos ideais da Revolução Francesa, esses setores defendiam a reforma das instituições, a elaboração de uma Constituição, a liberdade de comércio, o direito de participação política do cidadão. 

Lutavam, enfim, pela modernização de Portugal.

O marco inicial do Romantismo português é a publicação, em Paris, do poema “Camões”, em 1825, em que o autor, Almeida Garret, faz uma espécie de biografia sentimental do famoso poeta-soldado. Mas o Romantismo como movimento literário firma-se só a partir de 1836, com a criação da revista Panorama, na qual se publicam textos já claramente românticos de importantes escritores portugueses.

Os principais autores do Romantismo em Portugal são Almeida Garret, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco e Júlio Dinis.
Primeira geração romântica portuguesa

Essa geração caracteriza-se pelo empenho de seus integrantes em implantar o Romantismo no país: pelo emprego de alguns procedimentos clássicos ainda não superados; pelo nacionalismo e pelas preocupações históricas e políticas. Outras atitudes, como subjetivismo, medievalismo, idealização da mulher, do amor, da natureza, também se fazem notar, embora não sejam específicas dessa geração romântica. Entre outros, integram essa geração Almeida Garret, Alexandre Herculano e Antônio Feliciano de Castilho.

Segunda geração romântica portuguesa
 
Essa geração representa a maturidade do movimento romântico, ao mesmo tempo que prenuncia a sua superação em vista da presença de características realistas na produção literária de seus integrantes. Alguns dos autores dessa geração apresentam certos traços do “mal do século”, comportamento fortemente marcado pelo pessimismo, pelo negativismo existencial, pelo mórbido e pelo sentimentalismo excessivo. É o caso do poeta Soares de Passos e Camilo Castelo Branco em algumas de suas obras. Contudo, o próprio Camilo, como Júlio Dinis e o poeta João de Deus, já revela traços que apontam a superação do Romantismo e a transição para o Realismo e o Naturalismo, movimentos da segunda metade do século XIX.
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ALMEIDA GARRET

João Batista da Silva Leitão de Almeida Garret nasceu no Porto e morreu em Lisboa. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Viu-se obrigado ao exílio na Inglaterra quando a Constituição de 1822 foi abolida por um golpe comandado pela aristocracia portuguesa. Além de escritor, fundou pelo menos quatro jornais e exerceu intensas atividades parlamentares e diplomáticas.
 
Seu relacionamento adúltero com a viscondessa da Luz parece ter inspirado Folhas caídas, seu principal livro de poemas.

“Não sou clássico nem romântico!” Era assim que Garret se definia. Não escrevia conforme os padrões do Classicismo, tampouco aceitava o rótulo de escritor romântico, isto é, absolutamente sentimental e egocêntrico. De fato, sua obra de poeta, prosador e dramaturgo não mostra os impulsos emocionais que caracterizam o típico escritor romântico. Mas, de qualquer forma, Almeida Garret teve um papel importante como introdutor das ideias do Romantismo em Portugal.

As obras de Garret apresentam traços de tradição clássica, como o formalismo, vocabulário culto, racionalismo, contenção das emoções. Sua obra Camões (1825), apesar de considerada a primeira produção do Romantismo português, é fortemente marcada pelas influências que o levaram a lançar-se na nova estética.A inovação pela qual ela é responsável consiste muito na abordagem do tema – a vida de Camões, suas aventuras e seu sofrimento – do que a renovação da linguagem.
 

Partindo de poemas político-ideológicos comprometidos com o liberalismo e de obras ainda marcadas pela tradição clássica, como Camões e D. Branca (1826), o poeta só atingiu a maturidade romântica no gênero lírico quando contava aproximadamente 50 anos. Depois de dois casamentos, Almeida Garret, vivendo uma nova e profunda paixão, retomou a poesia lírica e criou então, suas melhores obras poéticas: Flores sem fruto (1845) e Folhas Caídas (1853). Nelas Garret apresenta uma poesia confessional, marcada por sentimentos nitidamente românticos: desejo, remorso, sensualismo, sofrimento, saudade. A linguagem torna-se mais simples e popular, os versos mais melodiosos, os sentimentos mais espontâneos. 

Este inferno de amar

Este inferno de amar – como eu amo!
Quem mo pôs aqui n’alma...quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida – é a vida que destrói –
Como é que se veio a atear,
Quando – ai quando se há-de ela apagar?

* * *
Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez...- foi um sonho –
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?

* * *
Só me lembra que um dia formoso
Eu passei...dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? – Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...
(In: Obras de Almeida Garret. Porto:
Lello e Irmão, 1963. p.177.)

Observe como no poema acima o amor é sinônimo de sofrimento, mas também é a razão maior, equivale apenas a um sonho distante e insípido.

Barca bela

Pescador da barca bela
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela
Oh pescador?

* * *
Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!

* * *
Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!
(Idem, p. 209)

No poema acima, fazendo uso de uma linguagem simples e explorando as métricas curtas e a musicalidade, criada sobretudo pelo ritmo e pela aliteração dos fonemas /p/ e /b/, o poeta aproxima-se das tradições populares da poesia portuguesa.

SEUS OLHOS

Seus olhos – se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou –
Não tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.

* * *


Divino, eterno! – e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.
(Idem, p. 222)

Garret representa o amor como os dois lados da moeda, o bom e o mal, paraíso e inferno. Para Garret, o amor faz machuca, faz sofrer, porém dá prazer, dá sentido. Sem a paixão, o poeta vive calmamente, como se estivesse dormindo. Essa tragédia amorosa reside no fato de que a paixão, para o poeta, é enganosa e nos cega.

Obra

Poesia: Camões (1825) – publicado em Paris, a primeira edição omitia, por razões políticas, o nome do autor; Dona Branca (1826); Folhas Caídas (1853).

Prosa: Viagens da minha terra (1846); O Arco de Santana (em dois volumes: 1845 e 1850).
Teatro: Frei Luís de Sousa (1844).
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ALEXANDRE HERCULANO

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo nasceu em Lisboa e morreu em Val-de-Lobos. São fatos importantes de sua vida o exílio na Inglaterra e na França e uma polêmica que travou com o clero, ambos decorrentes de sua participação nas lutas liberais. Juntamente com Garret, foi um intelectual que atuou bastante nos programas de reformas da vida portuguesa.
 
Na ficção de Herculano, além de temas religiosos, predomina o caráter histórico dos enredos, voltados para a Idade Média e relacionados às origens da nação portuguesa.

Um exército de homens, montados em cavalos e armados com lanças, atiradeiras e escudos, põe-se em fileira. Em suas bandeiras vêem-se brasões e o símbolo da cruz. À sua frente, coloca-se outro exército de homens de feições diferentes, com turbantes na cabeça, roupas compridas e largas, falando uma língua estranha e defendendo um deus diferente: Alá.
 
Não se trata de um filme da “sessão da tarde” na televisão, embora esse seja um tema de filme de aventura. Trata-se de uma das situações criadas por Alexandre Herculano (1810-1877), escritor português que se interessou por temas históricos, principalmente aqueles cujo cenário é a Idade Média, mundo de fantasias em que cavaleiros heróicos lutam contra o exército árabe e procuram salvar donzelas indefesas.

Embora tenha cultivado também a poesia, foi na prosa de ficção que Alexandre Herculano deixou sua maior contribuição. Nela o autor fez uso de seu largo conhecimento da história de Portugal, particularmente a relativa à Idade Média, introduzindo o romance histórico no país. Esse gênero renovou e revigorou a prosa de ficção portuguesa, dando o desgaste das novelas de cavalaria e das novelas sentimentais. Herculano é autor dos romances O bobo (situado no século XII), Eurico, o presbítero (situado no século VIII) e O monge de Cister (situado no século XVI). Como contista, publicou Lendas e narrativas, também de ambientação medieval.
Nessas obras, misturando-se a fatos históricos devidamente documentados, a matéria literária (trama amorosa, aventuras de cavalaria medieval, fantasia, imaginação) é às vezes utilizada pelo autor apenas como pretexto para dar vazão às suas ideias sociais, filosóficas, religiosas e nacionalistas.

Alexandre Herculano ainda deixou contribuições à cultura no campo do ensaio, do jornalismo e da historiografia. Como historiador, publicou História de Portugal e Estabelecimento da Inquisição em Portugal.
Obra

Poesia: A harpa do crente (1838).

Prosa:

a) Romance: O bobo (1843); Eurico, o presbítero (1844); o monge de Cister (1848).

b) Conto: Lendas e narrativas (1851).

c) Historiografia: História de Portugal (em quatro volumes, o último publicado em 1853).

Texto
 
Eurico, o presbítero é considerada a melhor obra de Alexandre Herculano. Trata-se de um romance histórico, gênero em que o autor mais se destacou. Nessa narrativa, ambientada no século VIII, Herculano trata das lutas da reconquista do território português na era medieval e debate o celibato dos padres.
 
Eurico, não podendo casar com Hermengarda, por causa da proibição do pai desta, resolve tornar-se sacerdote, transformando-se mais tarde no Cavaleiro Negro, misteriosa figura que se converte em herói nas lutas ocorridas em Portugal entre godos e árabes. O herói só reencontra Hermangarda no final da narrativa. Depois de uma conversa com a amada, Eurico se deixa matar e Hermengarda enlouquece.

A história de amor de Eurico e Hermengarda fica em segundo planos, prevalecendo a narração de fatos de uma época repleta de aventuras cavaleirescas. Por isso, a obra é classificada como romance histórico.
 
Vamos ler o final do romance.

Como tomba o abeto¹ solitário da encosta ao passar do furacão, assim o guerreiro misterioso do Críssus caía para não mais se erguer!...²

Nessa noite, quando Pelágio³ voltou à caverna, Hermengarda, deitada sobre o seu leito, parecia dormir. Cansado do combate e vendo-a tranqüila, o mancebo adormeceu também perto dela, sobre o duro pavimento da gruta. Ao romper da manhã, acordou ao som do canto suavíssimo. Era sua irmã que cantava um dos hinos sagrados que ele muitas vezes ouvira entoar na catedral de Tárraco. 

Dizia-se que seu autor fora um presbítero (...) chamado Eurico.
 
Quando Hermengarda acabou de cantar, ficou um momento pensando. Depois repentinamente soltou uma destas risadas que fazem eriçar4 os cabelos, tão tristes, soturnas e dolorosas que são elas: tão completamente exprimem irremediável alienação do espírito. 5

A desgraçada tinha, de feito, enlouquecido.

¹ abeto: árvore semelhante ao pinheiro.
² O narrador refere-se ao suicídio de Eurico.
³ Pelágio é irmão de Hermengarda.
4 Eriçar: erguer; arrepiar.
5 alienação do espírito: loucura.

Responda: que característica romântica se evidencia no destino das duas personagens?
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CAMILO CASTELO BRANCO

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu em Lisboa e morreu em São Miguel de Seide. 

Abandonou a primeira mulher e raptou uma mulher casada, com quem passou a viver. Acusado de bigamia, foi preso. Mais tarde viveu aventuras amorosas com outra mulher casada, uma freira e uma turista inglesa. Finalmente apaixonou-se por Ana Plácido, senhora casada que seria o grande amor de sua vida. Ambos foram presos, condenados por adultério. Na prisão, Camilo escreveu Amor de perdição, obra que lhe proporcionou grande popularidade. Após terem sido absolvidos e morto o marido de Ana, os dois amantes passaram a viver juntos. Mais de trinta anos depois, em 1890, Camilo Castelo branco suicidou-se, vencido pela cegueira.

AMIGOS

Amigos cento e dez, e talvez mais,
eu já contei. Vaidades que eu sentia!
Pensei que sobre a terra não havia
mais ditoso mortal entre os mortais.

* * *

Amigos cento e dez, tão serviçais,
tão zelosos das leis da cortesia,
que eu, já farto de os ver, me escapulia
às suas curvaturas vertebraís.

* * *

Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez, houve um somente
que não desfez os laços quase rotos.

* * *


- Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver". .
- Que cento e nove impávidos marotos!


A obra


As narrativas camilianas normalmente se ambientam em lugares que fizeram parte da vida do autor: uma vila ou uma aldeia provinciana, a cidade do Porto, o convento em que os pais enclausuravam as filhas desobedientes, a taberna aldeã, etc. Povoam esse ambiente tipos campesinos, que vão de fidalgos provincianos preconceituosos a elementos da burguesia portuense; mulheres de todas as condições sociais, da camponesa operária à fidalga; o padre, o comerciante com negócios no Brasil, a freira, o ferrador, o pedreiro, o salteador de estrada.


Mola da ação de seus enredos é frequentemente o amor. O amor contrariado pelas convenções sociais ou o amor gerador de raptos, de emboscadas e riscos, de ódios implacáveis entre famílias. O direito a esse sentimento é defendido e os que se interpõem entre os amantes são ridicularizados ou tratados com ódio.


Como narrador, Camilo foi extraordinário, oscilando entre o lirismo e o sarcasmo. Vibra com as personagens e comumente intervém na história, tecendo comentários piedosos, indignados ou sarcásticos. Sua linguagem caracteriza-se pelo vocabulário rico e pela economia de recursos. Concisão e força caracterizam seu estilo.
 
Apesar disso, a qualidade da obra camiliana é irregular, uma vez que o autor, sobrevivendo de suas publicações, chegou a produzir mais de duzentas obras. Em sua vasta produção ficcional destaca-se o romance-folhetim Mistérios de Lisboa, em que as narrativas são de mistério ou de terror; a novela passional, um gênero no qual o autor atinge a maturidade narrativa em Amor de Perdição, Amor de salvação e O romance de um homem rico, que tematizam o amor trágico; a novela satírica de costumes, em que a exploração do humorismo permite a caracterização irônica e satírica do burguês rico, do português que tenta a fortuna no Brasil ou do provinciano que faz má figura em Lisboa, representada por Coração, cabeça e estômago e  
A queda de um anjo; a novela histórica O judeu, biografia romanceada de Antônio José da Silva.
 
Na última fase de sua produção, Camilo deixou-se influenciar pelo romance naturalista e o imitou satiricamente nas obras A corja, Eusébio Macário e Vulcões de lama. Em A brasileira dos Prazins, contudo, o tratamento sério dado à obra mostra uma assimilação real, embora parcial, do Naturalismo, movimento da segunda metade do século XIX.
 
Amor de perdição é a mais famosa novela passional de Camilo Castelo Branco. Embora tenha relacionado a história à vida atribulada de um parente, Camilo incorporou à obra muito de suas próprias experiências na prisão e de seu relacionamento proibido com Ana Plácido, mulher casada.
 
Espécie de Romeu e Julieta à lusitana, Amor de perdição narra a história do amor impossível entre Simão Botelho e Tesesa de Albuquerque, jovens pertencentes à famílias nobres inimigas, que tentam afastar os apaixonados: Simão é enviado a Coimbra, enquanto Teresa, depois de se recusar a casar com seu primo Baltasar Coutinho, é encerrada num convento, no Porto. Simão, protegido pelo ferreiro João da Cruz e por Mariana, filha deste, permanece em Viseu. Na partida de Teresa, enfurece-se com a insolência de Baltasar e o mata a tiro, entregando-se em seguida à Justiça. Condenado à forca, tem depois sua sentença transformada em exílio. Nesse ínterim, Teresa, minada pela tristeza, adoece. No capítulo final, Simão embarca para o exílio e, a distancia, avista o mosteiro em que Teresa se encontra e pressente sua morte. Tomado de febre, vem também a morrer na viagem. Ao ser lançado o corpo ao mar, Mariana, que sempre o amara e espontaneamente o acompanhava ao exílio, lança-se ao mar e une-se a ele.
 
O fragmento que segue pertence ao penúltimo capítulo da obra, momento em que os amantes, por carta, discutem seu destino.


“Dez anos! – Dizia-lhe a enclausurada de Monchique. – Em dez anos terá morrido meu pai e eu serei tua esposa, e irei pedir ao rei que te perdoe, se não tiveres cumprido a sentença. Se vais ao degredo, para sempre te perdi, Simão, porque morrerás, ou não acharás memória de mim, quando voltares.”


Como a pobre se iludia nas horas em que as débeis forças de vida se lhe concentravam no coração!


As ânsias, a lividez, o deperecimento tinham voltado. O sangue, que criara novo, já lhe saía em golfadas com a tosse.


Se por amor ou piedade o condenado aceitasse os ferrolhos três mil seiscentas e cinqüenta vezes corridos sobre as suas longas noites solitárias, nem assim Teresa susteria a pedra sepulcral que a vergava de hora a hora.


“Não esperes nada, mártir – escrevia-lhe ele. – A luta com a desgraça é inútil, e eu não posso já lutar. Foi um atroz engano o nosso encontro. Não temos nada neste mundo. Caminhemos ao encontro da morte...Há um segredo que só no sepulcro se sabe. 


Ver-nos-emos?


Vou. Abomino a pátria, abomino a minha família; todo este solo está aos meus olhos coberto de forças, e quantos homens falam a minha língua, creio que os ouço vociferar as imprecações do carrasco. Em Portugal, nem a liberdade com a opulência; nem já agora a realização das esperanças me dava o teu amor, Teresa!


Esquece-te de mim, e adormece no seio do nada . Eu quero morrer, mas não aqui. Apague-se a luz de meus olhos; mas a luz do céu, quero-a! Quero ver o céu no meu último olhar.


Não me peças que aceite dez anos de prisão. Tu não sabes o que é a liberdade cativa dez anos! Não compreendes a tortura dos meus vinte meses. A voz única que tenho ouvido é a da mulher piedosa que me esmola o pão de cada dia, e a do aguazil que veio dar-me a sarcástica boa nova de uma graça real, que me comuta o morrer instantâneo da forca pelas agonias de dez anos de cárcere.


Salva-te, se podes, Teresa. Renuncia ao prestígio dum grande desgraçado. Se teu pai te chama, vai. Se tem de renascer para ti uma aurora de paz, vive para a felicidade desse dia. 


E, se não, morre, Teresa, em resposta àquela carta, significativa da turbação do infeliz, foram estas:


“Morrerei, Simão, morrerei. Perdoa tu ao meu destino... Perdi-te...Bem saber que sorte eu queria dar-te...e morro, porque não posso, nem poderei jamais resgatar-te. Se podes, vive; não te peço que morra, Simão; quero que vivas para me chorares. Consolar-te-á o meu espírito...Estou tranqüila...Vejo a aurora da paz...Adeus até ao céu, Simão.”
 (5.ed.São Paulo. Saraiva, s.d)
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Aguazil: oficial de deligências; juiz imprecação: súplica turbação: comoção, agitação
Débil: fraco lacerada: cortada; dilacerada vociferar: exclamar, bradar
Degredo: exílio lividez: palidez
Deperecimento: ato de desfalecer opulência: riqueza, luxo


Responda:


1. Teresa pede a Simão que aceite ficar dez anos preso em Portugal, em vez de dez anos exilado na África. Que razões levam a moça a pensar desse modo?


2. A heroína romântica normalmente é vista sob duplo enfoque: de um lado, certa fragilidade; de outro, a coragem e a persistência. Que elementos da caracterização de Teresa comprovam essa afirmação?


3. Simão, em sua carta, afirma: “E, se não, morre, Teresa, que a felicidade é a morte, é o desfazerem-se em pó as fibras laceradas pela dor, é o esquecimento que salva das injúrias a memória dos padecentes”.


a) Verifica-se, nesse excerto, um posicionamento tipicamente romântico de Simão diante da morte. Explicite-o, comentando o significado da morte para a personagem.


b) O Romantismo apresenta um gosto acentuado pela linguagem figurada e metafórica. Identifique, no texto, esse procedimento.


Românticos portugueses na Internet


Nos sites que seguem, você pode ler e copiar obras inteiras de Alexandre Herculano, Almeida Garret, Júlio Dinis e Camilo Castelo Branco.


* www.bibvirt.usp.br/index.html


* www.mundocultural.com.br/biblioteca/index.asp

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ROMANTISMO NO BRASIL
Envolvidos pelo entusiasmo nacionalista gerado pela proclamação da Independência em 1822, os escritores românticos engajaram-se também no projeto de criação de uma literatura autenticamente nacional. Esse esforço de “brasilidade” revelou-se na escolha de temas ligados à realidade social e histórica e na própria linguagem usada pelos escritores, que abandonaram aos poucos o tom lusitano em favor de um estilo mais próximo da fala brasileira.

Nessa época, o Brasil era um país essencialmente agrário, dependente do trabalho escravo. Estava longe do processo de desenvolvimento urbano que a Revolução Industrial, com suas fábricas e multidões de operários, provocava em muitos países europeus. No início do século XIX, o imenso território brasileiro ainda era pouco povoado e a vida cultural, a não ser em algumas poucas cidades, como o Rio de Janeiro, por exemplo, era praticamente inexistente.

Os folhetins publicados nos jornais existentes atraíram a atenção do pequeno público leitor da época. Como muitas pessoas gostavam de acompanhar as histórias, mas não sabiam ler, era costume, nas casas de família, a realização de reuniões periódicas em que alguém lia em voz alta os capítulos dos folhetins.
 
A publicação da obra Suspiros poéticos e saudade (1836), de Gonçalves de Magalhães, tem sido considerado marcos inicial do Romantismo no Brasil. A importância dessa obra, porém, reside muito mais nas novidades teóricas de seu prólogo, em que Magalhães anuncia revolução literária romântica, do que propriamente na execução dessas teorias.

Na Idade Média européia, as línguas provenientes do Latim denominavam-se ‘romances’, que era também a designação dos poemas narrando histórias de cavaleiros e seus feitos cheios de aventuras heróicas e amorosas. Daí originou-se o nome ‘Romantismo’, que passou a denominar um movimento literário nascido na Inglaterra e na Alemanha no século XVIII.

Abrangendo as vertentes de poesia e prosa de ficção, o Romantismo se norteou por duas grandes frentes inovadoras: a valorização do ‘eu’, no plano individual; e a tendência para o nacionalismo, no plano político, ambos sob a égide de ideais e liberdade.
 
O domínio do subjetivismo e do culto do ‘eu’ (egotismo) vinha em substituição aos temas épicos do Classicismo, em que se tomava m povo inteiro como herói, O ‘eu’ vinha também como substituto das temáticas religiosas e de fundo moral, em que a literatura estava a serviço de crenças e de governos; ou dos temas em que se focalizava o ‘bom selvagem’ e os motivos campesinos. Assim, o poeta, que antes cantava a pátria (como os clássicos Homero e Camões) ou que glorificava Deus (os barrocos) ou o bucolismo (os árcades), agora voltava-se para si e para os problemas individuais, envoltos invariavelmente numa aura de sentimentalismo.

Por outro lado, politicamente, enquanto ocorriam na Europa os movimentos nacionalistas ( a Alemanha e a Itália, por exemplo,ainda eram divididas em peuenos está-nações), nas Américas as colônias conquistavam suas independências na Inglaterra, da Espanha e Portugal.

Desse modo , o tema ‘nacionalismo’ – tanto no Velho Mundo como no Novo – caiu como luva na receita romântica. Refutava-se a cultura clássica e a influência Greco-latina em prol de valores nacionais e libertários.

Para isso, os europeus buscaram na Idade Média suas raízes nacionais, e assim, grande parte de seus livros contava histórias de cavaleiros medievais ( como em Ivanhoé, de Walter Scott). Por outro lado, no Brasil se elegia o índio como herói, reconhecendo-o como origem de nossa cultura (como nos romances indianistas Iracema, O guarani, Ubirajara, de José de Alencar, e nos poemas indianistas de Gonçalves Dias).

O projeto de José de Alencar buscava mais ainda: incluía a nacionalização a língua ou o reconhecimento de uma variante brasileira para a língua portuguesa, sem o que não poderíamos ter uma língua e uma literatura nacional.

As primeiras manifestações românticas no Brasil surgiram com a publicação do livro Suspiros poéticos e saudades (1836), de Gonçalves Magalhães, em cujo prólogo o autor já teorizava sobre a nova escola literária. Outro marco inaugural foi o lançamento, na França, de Niterói – revista brasiliense, editada pelo mesmo Magalhães (1836)

O romance ou a prosa de ficção

Ao contrário da poesia, que há séculos vem sendo cultivada, não existia, nessa época, o gênero que hoje conhecemos como ‘romance’ – essa narrativa em prosa de ficção contando casos e histórias de personagens saídos da burguesia.
 
O antigo romance medieval narrava episódios de fundo moral e religioso e retratava personagens da aristocracia e do clero, e sua leitura era muito pouco atraente.
 
O verdadeiro romance, portanto, nasceu no século XVIII na Inglaterra e na França, em pleno Romantismo, e um do seus pioneiros foi Daniel Defoe com as aventuras de Robinson Crusoé, livro que não demorou a conquistar milhões de leitores britânicos e depois em quase todo o mundo.

Com o desenvolvimento da imprensa, os jornais cresceram e começaram a publicar histórias divididas em capítulos semanais, que causavam enorme interesse público. Eram os chamados ‘romances em folhetim’, que passaram a ocupar parte dos jornais de maior tiragem na Europa.

No século XIX, essa moda chegou ao Brasil e alcançou também repercussão popular. Surgia no país um mercado de consumidores de folhetins, constituídos especialmente de mulheres, estudantes e profissionais liberais, todos da classe média. A grande massa da população pobre permanecia quase toda no analfabetismo.

Nossos primeiros romances foram A filha do pescador, de Teixeira e Sousa (1843) e A moreninha, de Joaquim Manoel de Macedo (1844).

Contexto e características

O ambiente enfumaçado das guerras napoleônicas, a decadência dos reis absolutos e a primazia do liberalismo econômico e do capitalismo constituem o panorama do Romantismo europeu. Finalmente a burguesia, em sua escala desde o Renascimento, chegava ao poder, destronando praticamente a nobreza.

O Brasil do final século XVIII, não emancipado de Portugal, ansiava por liberdade, assistia a algumas revoltas internas, e ainda amarga a derrota da Inconfidência Mineira.

Mudanças só viriam após 1808, com a transferência da Corte portuguesa para o Brasil e algumas reformas de D. João VI, como a abertura dos portos para as nações amigas, a criação da Biblioteca Nacional, da Imprensa Régia e do Banco do Brasil.

Nossa independência, porém, só se efetivaria em 1822, portanto em pleno século XIX, bem depois da dos Estados Unidos e de outros países americanos. Em relação à escravidão negra também se repetiria o atraso, pois só obtivemos a abolição definitiva em 1888, tornando-se o Brasil uma das últimas nações a se livrar desse flagelo.
 
As características gerais do Romantismo são:
  • Culto do ‘eu’ (individualismo e subjetivismo exacerbados);
  • Sentimento de nacionalidade e dos ideais de liberdade em todos os sentidos;
  • Apelo ao sentimentalismo e aos temas amorosos;
  • Valorização da originalidade, da imaginação e da inspiração;
  • Visão da mulher como uma criatura idealizada.
Gerações, fases e tipos
Movimento que se abrangeu um longo período de tempo e coincidiu com significativos fatos históricos, o Romantismo apresentou, em sua trajetória, gerações, tipos e fases distintas no Brasil.
 
Na poesia, houve basicamente três gerações e fases:

Primeira fase
 
A preocupação fundamental do primeiro momento foi definir uma temática nacional. Essa preocupação manifestou-se em obras de valor documental, como o prefácio de Suspiros poéticos e saudades, de Gonçalves de Magalhães, e em manifestações literárias propriamente ditas, como na obra Primeiros cantos (1846), de Gonçalves ias, primeira expressão legítima de uma poesia nacional de qualidade.

Na poesia dessa primeira fase já se anunciam as marcas principais do nosso Romantismo poético:

a) o nacionalismo, expresso através do indianismo e da exaltação da paisagem brasileira;
b) o saudosismo, manifestando-se freqüentemente pela lembrança da infância;
c) a religiosidade;
d) alguns traços do pessimismo decorrente do mal-do-século.

Gonçalves Dias e Casimiro de Abreu destacam-se nesta fase.

Segunda fase
 
A tendência mal-do-século, presente ocasionalmente na obra de autores da primeira fase, vai ser o traço fundamental de nossa segunda fase romântica, também conhecida como Ultra-Romantismo, ou seja, o Romantismo levado às últimas conseqüências. A expressão da angustia, do sofrimento, da dor existencial marca grande parte das obras dessa segunda fase.

Desse desequilíbrio existencial resulta a fuga na fantasia, no sonho e a obsessão pela morte, alem da atração por paisagens sombrias. É o chamado “lirismo da descrença”, do qual Álvares de Azevedo é o poeta mais representativo.

Ocorrem também traços inovadores nesta segunda fase. Na obra de Fagundes Varela inaugura-se a preocupação com o escravo; em Joaquim de Souza Andrade (Sousândrade) nota-se uma audaciosa renovação da linguagem. 

Ultra-românticos na Internet

Nos sites que seguem, você pode ler e copiar obras inteiras de Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela, entre elas Lira dos Vinte anos e Noite na taverna, de Álvares de Azevedo.


Terceira fase
 
A terceira geração da poesia romântica brasileira é formada por poetas ligados à corrente condoreira ou hugoana, como também é chamada por influência do escritor francês Victor Hugo. Desse grupo participaram vários escritores, entre eles Castro Alves, Pedro Luís, Pedro Calasãs e, até certo ponto, Sousândrade.

Os condoreiros, comprometidos com a causa abolicionista e republicana, desenvolveram a poesia social. Seus poemas, geralmente em tom grandiloqüente, próximo da oratória, tinham como finalidade convencer o leitor-ouvinte e conquistá-lo para a causa defendida. O centro da preocupação da linguagem desloca-se do eu (o emissor) para o assunto (no caso, a Abolição e a República), o que representa uma mudança profunda, considerando-se que o Romantismo é por natureza egocêntrico.

O nome condoreirismo dado a essa corrente associa-se ao condor ou a outras aves como a águia, o falcão e o albatroz, tomadas como símbolo dessa geração de poetas com preocupações sociais. Identificando-se com o condor – ave de voo alto e solitário e capaz de enxergar a grande distância -, os poetas condoreiros supunham-se também dotados dessa capacidade e, por isso, obrigados ao compromisso, como poetas-gênios iluminados por Deus, de orientar os homens comuns para os caminhos da justiça e da liberdade.
 
A decadência da monarquia e as lutas abolicionistas são problemas sociais que absorvem a atenção dos poetas da terceira fase romântica. O sofrimento alheio – sobretudo dos escravos – torna-se assunto de boa parte da melhor poesia produzida no período, em que sobressai o baiano Castro Alves, conhecido como “o poeta dos escravos”.


Características

SUBJETIVISMO – O poeta quer retratar em sua obra uma realidade interior e parcial. Trata os assuntos de forma pessoal, com suas opiniões e sentimentos, algo próximo a fantasia.

SENTIMENTALISMO - Saudade (saudosismo), tristeza, nostalgia e a desilusão são constantes.

EGOCENTRISMO – Cultua-se o “eu” interior, atitude narcisista.

PESSIMISMO – conhecido como mal do século. O artista se vê impossibilitado de realizar seus sonhos e desse modo cai em profunda tristeza, angústia, solidão, inquietação, desespero, que o leva muitas vezes ao suicídio.

ESCAPISMO PSICOLÓGICO – Espécie de fuga. O artista não consegue aceitar a realidade, por isso tenta uma fuga para lugares que o lembram coisas boas ou melhores, por isso ocorre uma volta ao passado, individual. (Ligadas ao seu próprio passado, infância).

BYRONISMO – Caracteriza-se por mostrar estilo de vida boêmia, voltada para o vício e os prazeres da bebida, fumo, do sexo. Sua forma de ver o mundo é bem egocêntrica, pessimista, angustiada e até mesmo satânica.

RELIGIOSIDADE a vida espiritual e a crença em Deus são enfocadas como ponto de apoio diante das frustrações do mundo real.

NATIVISMO – culto pela natureza. O nacionalismo é exaltado por ela.

A POESIA BRASILEIRA
 
O Romantismo no Brasil produziu poesia lírica – a grande maioria – e épica (Gonçalves Dias, Castro Alves, Sousândrade), penetrando nas variantes indianista, satânica, experimentalista etc. Seus principais autores foram:
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GONÇALVES DE MAGALHÃES

Nasceu no Rio de Janeiro. Após formar-se em Medicina, transferiu-se para Paris, onde fundou a revista Niterói e publicou o livro Suspiros poéticos e saudades, marcos iniciais do Romantismo brasileiro.

Em 1837 volta ao Brasil, e trabalha no magistério e no funcionalismo público e depois entra para a diplomacia.

Sua obra principal foi o poema épico indianista Confederação dos tamoios, de inspiração indianista, em razão do qual teve uma polêmica com José de Alencar, que preconizava o romance e não a poesia como forma ideal para expressão do indianismo.

O prefácio ao 1º número da revista Niterói é um manifesto em prol do Romantismo, onde o autor expressa as novas ideais de liberdade de expressão, de nacionalismo e religiosidade.
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GONÇALVES DIAS

Antônio Gonçalves Dias, filho de um comerciante português e de uma cafuza (mestiça de negro e índio), nasceu em Caxias (MA). Após os primeiros estudos, foi mandado para Coimbra, onde deveria forma-se em Direito. Lá conheceu escritores românticos portugueses. Os oito anos que viveu em Portugal foram muito importantes para a formação intelectual do poeta. A grande paixão de sua vida foi Ana Amélia do Vale, cuja mão lhe foi recusada pela família da moçam porque Gonçalves Dias era mestiço.
 
Em 1862 regressou à Europa , um busca de tratamento para diversas doenças que o acometiam. Na volta ao Brasil, o poeta morreu no naufrágio do navio onde viajava. Afirma que Gonçalves Dias trazia prontos os cantos finais de sua obra Os timbiras, que ele planejara como poema épico e da qual tinha escrito quatro cantos.
 
Embora Gonçalves de Magalhães seja considerado o introdutor do Romantismo no Brasil, na verdade foi Gonçalves Dias quem implantou e solidificou a poesia romântica em nossa literatura. Sua obra pode ser considerada a realização de um verdadeiro projeto de construção da cultura brasileira.
 
Gonçalves Dias, buscando captar a sensibilidade e os sentimentos do nosso povo, criou uma poesia voltada para o índio e para a natureza brasileira, expressa numa linguagem simples e acessível. Seus versos, tais como de sua “Canção do exílio”, são melódicas e exploraram métricas e ritmos variados. Cultivou também poemas religiosos, de fundo panteísta que falam da manifestação de Deus na natureza.


Sua obra poética inclui os gêneros líricos e épico. Na épica, canta os feitos heróicos de índios valorosos, substitutos da figura do herói medieval europeu. Na lírica, tem como temas mais comuns, a pátria, a natureza, Deus, e índio e o amor não correspondido.


CANÇÃO DO EXÍLIO


Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. * * *
Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores.


* * *
Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer eu encontro lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. 


* * *
Minha terra tem primores, Que tais não encontro eu cá; Em cismar –sozinho, à noite– Mais prazer eu encontro lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá.


* * *
Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que disfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu'inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá.


Antes de ser batizada pelos portugueses, nossa terra era chamada pelos indígenas de Pindorama, palavra que, em tupi-guarani, significa “terra de palmeiras”. Há inúmeras árvores muito comuns na flora brasileira cujo nome termina em –eira, mas o poeta escolheu palmeira.


Ao optar pela palavra palmeira, o poeta revela uma das mais importantes características do nosso Romantismo: o nacionalismo, fundado na busca das origens mais remotas de nosso país e alimentado pela exaltação da terra natal.


No poema “Canção do Exílio”, percebemos o encontro de dois temas anteriormente relevantes no Romantismo: a natureza e a saudade da pátria.


O texto é estruturado a partir do contraste entre a paisagem européia e a terra natal – sempre vista com o olhar exagerado de quem está distante e, em sua saudade, exalta os valores que não encontra no local de exílio.


A “Canção do exílio”, foi escrita quando o poeta maranhense tinha 20 anos e estudava em Coimbra. Além de instalar na literatura brasileira um dos mais retomados temas de nossa cultura (a oposição saudosa entre lá e cá), o poema revela o imenso amor à pátria.


Estudo do texto


1. Que papel assume o eu-lírico?


2. Identifique os advérbios que remetem, respectivamente, ao local do exílio e ao Brasil.


3. Reveja todos os substantivos do texto. Na sua maioria, eles se referem ao universo natural ou ao universo cultural? Qual foi a intenção do poeta ao realizar essa escolha?


4. Identifique características românticas nos trechos indicados:


a. toda a segunda estrofe;


b. dois primeiros versos da terceira estrofe;


c. primeiro verso da última estrofe.


5. Pode-se afirmar que no poema ocorre uma das seguintes identidades. Qual?


a. poeta = palmeira; Sabiá = terra natal.


b. poeta = Sabiá; palmeira = terra natal.


c. poeta = lá; palmeira = cá.


6. Explique o título do poema.


7. Esse poema ilustra uma característica básica do Romantismo. Qual?


8. O poema foi escrito em versos de sete sílabas. Que nome se dá a esse tipo de verso?
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 CASSIMIRO DE ABREU

Nasceu na Barra em São João (RJ). Fez seus estudos em Nova Friburgo, depois dedicou-se ao comercio. Em1853 mudou-se para Lisboa, onde adoeceu e dedicou-se a literatura (escreveu a peça Camões e Jau e os primeiros poemas). Voltou para o Rio de Janeiro, e em 1859 publicou As primaveras, seu mais conhecido livro de poemas. Morreu tuberculoso.

Temas preferências: os líricos e amorosos, em que expressou a saudade da pátria, a nostalgia da infância e o amor (que inclui o medo de amar). Seu texto, alem de muito popular, é de uma simplicidade e tocante.
 
É possível destinguir três traços fundamentais na poesia de Casimiro de Abreu: o pessimismo decorrente do mal-do-seculo; o saudosismo, que se revela na melancolia produzida pela saudade da terra natal e da infância; o nacionalismo, que aparece em inúmeros poemas de exaltação a pátria.

É um dos poetas mais populares do nosso Romantismo, graças ao lirismo ingênuo e a linguagem simples de seus poemas.
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ÁLVARES DE AZEVEDO

Álvares de Azevedo (1831-1852) é a principal expressão da geração ultra-romântica de nossa poesia. Paulista, fez estudos básicos no Rio de Janeiro e cursava o quinto ano de Direito em São Paulo. Estudioso, lia em várias línguas e escreveu toda a sua obra nos quatro anos que esteve em São Paulo.

O escritor era de pouca vitalidade e o desconforto das repúblicas aliado ao esforço intelectual intenso, enfraqueciam sua saúde. Entre 1851 e 1852 (20 anos) manifestou-se a tuberculose pulmonar, agravada quando sofreu um acidente (queda de cavalo) cujas complicações o levaram a morte, antes de completar 21 anos.

O escritor cultivou a poesia, a prosa e o teatro. Os sete livros, discursos e cartas que produziu foram escritos em apenas quatro anos, período em que era estudante universitário. Por isso, deixou uma obra de qualidade irregular, se considerada no conjunto, mas de grande significado na evolução da poesia nacional.

Pertenceu à 2ª geração romântica, a byroniana, mal-do-seculo ou ultrarromantica. Sua poesia foi influenciada pelo francês Musset e pelo Lord Byron, de quem herdou literariamente o spleen (angustia amorosa), as tendências para auto-destruição e uma ironia profunda. Temas preferidos: amor e morte.

Seus poemas falam constantemente do tédio da vida, do sentimento da morte e da frustração amorosa. Em seus versos, a mulher ora aparece como um anjo, pura e virginal, ora como uma figura fatal, sensual e envolvente. Nos dois casos, porém, é sempre inacessível, distante do poeta, que vive mergulhado numa triste solidão, como vemos nos versos a seguir.

“Foi por ti que num sonho de ventura
A flor da mocidade consumi,


E às primaveras digo adeus tão cedo


E na idade do amor envelheci!


* * *

Vinte anos! derramei-os gota a gota
Num abismo de dor e esquecimento...


De fogosas visões nutri meu peito...


Vinte anos!...não vivi um só momento!”




Álvares de Azevedo surpreende o leitor, pois, ao lado do poeta melancólico e sofredor, existe também o poeta irônico e zombeteiro, que ri da própria poesia romântica e do sentimentalismo exagerado da época:

“Eu morro qual nas mãos da cozinheira
O marreco piando na agonia...


Como o cisne de outrora...que gemendo


Entre os hinos de amor se enternecia.


* * *


Coração, por que tremes? Vejo a morte,
Ali vem lazarenta e desdentada...


Que noiva!...E devo então dormir com ela?


Se ela ao menos dormisse mascarada!”




Obras: Lira dos vinte anos – poemas, mostrando o lado amoroso, suave, e ao mesmo tempo satânico; a banalização do amor, paródia de poesia e de atitudes sentimentais; intertextualidade como Dante, Boccaccio, Gil Vicente, Cervantes, Shakespeare, Goethe, Byron.

Noite na taberna – contos fantásticos, literatura mal-do-seculo. Seis estudantes bêbados o contam historias estranhas: sexo, mistério, assassinatos, traições.

Macário – drama teatral em que o jovem Macário, poeta e estudante de Direito (parece autobiográfico) vive um dilema como ser entre angelical e demoníaco.

Lembrança de morrer

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça a dor vivente,


Não derramem por mim nem uma lágrima


Em pálpebra demente.


* * *
E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:


Não quero que uma nota de alegria


Se cale por meu triste pensamento.


* * *


Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto o poento caminheiro.


- Como as horas de um longo pesadelo


Que se desfaz ao dobre de um sineiro;


* * *


Como o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia;


Só levo uma saudade – é desses tempos


Que amorosa ilusão embelecia.


* * *


Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...


De ti, ó minha mãe! Pobre coitada


Que por minha tristeza te definhas!


* * *


De meu pai...de meus únicos amigos,
Poucos – bem poucos – e que não zombavam


Quando, em minhas noites de febre endoidecido,


Minhas pálidas crenças duvidavam.


* * *
Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,


É pela virgem que sonhei...que nunca


Aos lábios me encostou a face linda!


* * *
Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta desde flores...


Se viveu, foi por ti! E de esperança


De na vida gozar de teus amores.


* * *
Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo...


Ó minha virgem dos errantes sonhos,


Filha do céu, eu vou amar contigo!


* * *
Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,


À sombra de uma cruz, e escrevam nela:


- Foi poeta – sonhou – e amou na vida. –


* * *
Sombras do vale, noites da montanha,
Que minh’alma cantou e amava tanto,


Protegei o meu corpo abandonado,


E no silêncio derramai-lhe canto!


* * *


Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,


Arvoredos do bosque, abri os ramos...


Deixai a lua prantear-me a lousa!



AZEVEDO, Álvares de. Lembranças de morrer. In: Literatura comentada.
São Paulo, abril Educação, 1982. p. 28-9



Fibra: qualquer filamento ou fio. 2. (fig.) força de ânimo; valor moral; firmeza; energia.
Enlaçar: prender com laços, atar, unir.
Demente: enlouquecido.
Passamento: morte.
Poento: poeirento, coberto de pó.
Caminheiro: caminhante; viandante.
Dobre: som do sino dando volta sobre o eixo, o que geralmente é sinal de morte.
Desterro: degredo, solidão.
Errante: vagante; que anda sem destino.
Embelecer: embelezar, tornar belo.
Velar: passar a noite junto à cabeceira de um doente.
Definhar: enfraquecer, consumir-se pouco a pouco; abater-se.
Duvidar: vacilar; hesitar.
Preludiar: ensaiar a voz ou um instrumento antes de começar a cantar ou a tocar.
Lousa: laje; pedra de túmulo. Nelas, geralmente identifica-se quem está enterrado, com o nome e a data de nascimento e morte.
 
A poesia de Álvares de Azevedo, fortemente subjetiva, expressa uma visão pessimista da vida. Para ele, felicidade e realização amorosa são objetivos inatingíveis. O eu-lírico mergulha na depressão, no sonho e no devaneio. Por isso, a perspectiva da morte é sempre lembrada.

O poema acima, escrito trinta dias antes da morte do poeta, foi declamado em seu enterro pelo romancista Joaquim Manuel de Macedo.

Estudo do texto

1. Leia as duas primeiras estrofes e faça a relação entre as colunas:


Linguagem conotativa

a. “rebentar-se a fibra,
que o espírito enlaça à dor vivente”
b. “matéria impura”
c. “nota de alegria”
d. calar-se

Linguagem denotativa

1. cadáver
2. morrer
3. morte da flor
4. flor

2. Coloque na ordem direta os dois primeiros versos da terceira estrofe. Em seguida, releia esta estrofe e faça as correspondências.

a. “dobre de um sineiro”
b. “horas de um longo pesadelo”
c. “tédio do deserto”
d. “poento caminheiro”

1. Vida
2. eu-lírico
3. morte

3. Releia as três últimas estrofes e responda:

a. Onde o eu-lírico pede para ser enterrado?
b. Epitáfio é uma inscrição que se coloca sobre o túmulo. Que epitáfio solicita o poeta para si?
c. A quem ele pede proteção para depois da morte?
4. Nas primeiras estrofes ocorrem as seguintes comparações e metáforas para o plano físico da vida:

VIDA = dor vivente; tédio do deserto; horas de um longo pesadelo.

Que característica romântica se expressa nessas comparações? Justifique sua resposta.
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CASTRO ALVES

Castro Alves, o “poeta dos escravos”, é considerado a principal expressão condoreira da poesia brasileira. Nascido em Curralinho, hoje Castro Alves (BA), estudou Direito em Recife e em São Paulo. Sua obra representa, na evolução da poesia romântica brasileira, um momento de maturidade e de transição. Maturidade em relação a certas atitudes ingênuas das gerações anteriores, como a idealização amorosa e o nacionalismo ufanista, substituídas por posturas mais críticas e realistas; transição porque a perspectiva mais objetiva e crítica com que via a realidade apontava o movimento literário subseqüente, o Realismo.
 
Castro Alves cultivou a poesia lírica e social, de que são exemplos as obras Espumas flutuantes e A cachoeira de Paulo Afonso; a poesia épica, em Os escravos; e o teatro, em Gonzaga e a Revolução de Minas.

A linguagem usada por Castro Alves para defender seus ideais liberais é grandiosa, com gosto acentuado pelas hipérboles e por espaços amplos, como o mar, o céu, o infinito, o deserto.

Trazendo inovações de forma e de conteúdo, a linguagem poética de Castro Alves prenuncia a perspectiva crítica e a objetividade do Realismo, movimento literário da década seguinte. Apesar disso, é uma linguagem essencialmente romântica, porque afinada com o projeto liberal do Romantismo brasileiro e bastante carregada emocionalmente, beirando os limites da paixão.

Embora a poesia lírica amorosa de Castro Alves ainda contenha um outro vestígio de amor platônico e da idealização da mulher, de modo geral ela representa um avanço decisivo na tradição poética brasileira, por ter abandonado tanto o amor convencional e abstrato dos clássicos quanto o amor cheio de medo e culpa dos românticos.
 
Em vez de “virgem pálida”, a mulher nos poemas de Castro Alves é quase sempre um ser corporificado e, mais que isso, participa ativamente do envolvimento amoroso. E o amor é uma experiência viável, concreta, capaz de trazer tanto a felicidade e o prazer como a dor. Portanto, o conteúdo da lírica do poeta é uma espécie de superação da fase adolescente do amor e o início de uma fase adulta, mais natural, que aponta para uma objetividade maior, prenunciando o Realismo. 

O erotismo na poesia de Castro Alves

Veja um exemplo de erotismo existente em alguns poemas de Castro Alves. Estes versos são do poema “Beijo eterno”:

Diz tua boca: “Vem!”

Inda mais! Diz a minha, a soluçar...Exclama

Todo o meu corpo que o teu corpo chama:

“Morde também!”

Ai! Morde! Que doce é a dor

Que me entra as carnes, e as tortura!

Beija mais! Morde mais! Que eu morra de ventura,

Morto por teu amor!

NAVIO NEGREIRO

III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

* * *

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs

* * *

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

* * *

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

* * *

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

* * *

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais... Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...
(Espumas Flutuantes, Rio de Janeiro:
Edições de Outro, s.d. p. 184-5)
Açoite: chicote;
Arquejar: ofegar.
Dantesco: relativo às cenas horríveis narradas por Dante Aliguieri em sua obra Divina comédia, na parte em que descreve o inferno.
Espectros: fantasmas.
Luzernas: clarões.
Tombadilho: alojamento do navio.
Turbilhão: redemoinho.
Vãs: inúteis, sem valor.
 
O poema épico-dramático “O navio negreiro” integra a obra Os escravos e, ao lado de “Vozes d’África”, da mesma obra, constitui uma das principais realizações de Castro Alves.

O tema de “O navio negreiro” é a denúncia da escravização e do transporte de negros para o Brasil. Quando o poema foi escrito, em 1868, já fazia dezoito anos que vigorava a Lei Eusébio de Queirós, que proibia o tráfico de escravos, mas a escravidão no país persistia.

Portanto, sem a preocupação de escrever sobre a realidade imediata, Castro Alves faz uma recriação poética das cenas dramáticas do transporte de escravos no porão dos navios negreiros. Para isso valeu-se em grande parte dos relatos de escravos com quem conviveu, na Bahia, quando menino.

NAVIO NEGREIRO EM RAP

No CD livro (1998), o baiano Caetano Veloso cria uma música para o poema “O navio negreiro” e canta-o, em estilo rap, juntamente com Maria Bethânia.

Se possível, ouça a canção e observe como Caetano confere atualidade ao poema de Castro Alves ao aproximá-lo do rap, gênero musical cultivado na periferia das grandes cidades por negros e por outros grupos socialmente excluídos.
 
O cruzamento do poema com o rap parece lembrar que os problemas de opressão e miséria social vividos pelos negros no século XIX, com algumas diferenças, continuam os mesmos.
video

Cena do filme Amistad, de Steven Spielberg, que retrata a condição de negros africanos escravizados e levados aos Estados Unidos, no século XIX.

A PROSA DE FICÇÃO
 
O ambiente burguês brasileiro foi atingido inicialmente pelos romances europeus (principalmente franceses), traduzidos e publicados em folhetins nos jornais do Rio de Janeiro no século XIX. Os editores desses jornais não demoraram, porem a descobrir os autores brasileiros, que representaram menos custos e enredos mais próximos ao nosso gosto.
 
Assim é eu ocorreu o primeiro sucesso a arrebatar o publico com o romance A moreninha, de Joaquim Manoel de Macedo, em 1844. Seguiram-se outros folhetins de sucesso, mas o mais bem sucedido foi O guarani, de José de Alencar, em 1857, que trouxe a novidade indianista para os leitores dos jornais.
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JOAQUIM MANOEL DE MACEDO
(1820 – 1882)

Macedo nasceu em Itaboraí (RJ). Formou-se em Medicina e publicou seu 1º livro – A moreninha – em 1844, vindo a seu um romancista popular. Dedicou-se a literatura para o resto da vida. Fez parte do grupo de Araujo Porto Alegre e Gonçalves Dias que fundou a revista Guanabara. Foi professor do Colégio Pedro II e preceptor dos filhos da Princesa Isabel. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

Representante da classe média carioca, opunha-se à aristocracia rural, por isso produziu mais romances urbanos. Seus personagens são estudantes idealizados e moças casadoiras, alem de outros habitantes da burguesia das cidades.

Utilizava linguagem fácil para o leitor, quase coloquial e com ditos populares, embora também recorresse a termos eruditos. Como narrados, às vezes interfere na narrativa e os diálogos dos personagens são bem teatrais. Trata-se de um ficcionista perfeitamente enquadrado na escola romântica pela temática convencional, pelo sentimentalismo e idealismo burguês. Obras: A moreninha (1844), O moço loiro (1869)

A MORENINHA (1844), J.M.Macedo

  • Gênero: romance urbano de costumes.
  • Foco narrativo: 3ª pessoa onisciente.
  • Tempo: século XIX
  • Espaço: ilha de Paquetá (provavelmente), no Rio de Janeiro.
  • Personagens: Carolina, a moreninha, inteligente e bonita, 15 anos.
Augusto – estudante de medicina, romântico e inconstante.
D.Ana – avó de Felipe e Carolina.
Felipe – irmão de Carolina, amigo de Augusto.
Fabrício e Leopoldo – estudantes de medicina e amigos de Augusto e Felipe.
  • Temas: historia de amor com final feliz; descrição de costumes sociais cariocas da época.
  • Enredo: história de um rapaz chamado Augusto, muito inconstante no amor, e que acaba se apaixonando por Carolina.
Augusto e dois amigos (Fabrício e Leopoldo) vão passar dia de Sant’Ana na ilha da avó de seu amigo Felipe.

Lá conhecem Carolina e o enredo se constrói em torno do par amoroso Augusto/Carolina, que, no final, se casam.
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Manuel Antônio de Almeida (1831)

Nasceu no Rio de Janeiro e foi um romancista essencialmente carioca ao restratar tipos e cenas da sua cidade. Estudou medicina e vivia da publicação de folhetins publicados semanalmente em jornais. Escrevia para a “Pacotilha”, um suplemento do jornal Correio mercantil, onde publicou seu mais famoso livro Memórias de um sargento de milícias entre 1852 e 1853, obra inovadora, pois na época os romances mais lidos eram os excessivamente românticos de Joaquim Manoel de Macedo e outros autores. Seus personagens não são da alta burguesia, mas tipos populares.

Manuel A.Almeida foi direto da Imprensa Oficial e lá deu o primeiro emprego ao jovem Machado de Assis.
 
Morreu no litoral norte do estado do Rio, no naufrágio do navio Hermes.

Características literárias: primeiro romancista brasileiro a retratar a classe baixa/pobre. Seu estilo é simples, direto. Apesar de introduzir um texto mais despojado, sem melodrama e a pieguice romântica, é considerado um escritor do Romantismo não só pelo aspecto cronológico como também por certas características de seu Sargento de Milícias, como o final feliz, típico da sua escola.

MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS – 1852 E 1854

  • Gênero: romance de costume (costumbrista). Alguns críticos classificam-se também como picaresco.
  • Tempo: inicio do século XIX (D.João VI )
  • Espaço: cidade do Rio de Janeiro
  • Foco narrativo: rompe com a posição do narrador romântico, pois ora ele está na 3ª pessoa, ora na 1ª, interrompendo a narração para conversar com o leitor, como o fará mais abertamente Machado de Assis mais tarde e os modernistas no século XX.
  • Temas: as aventuras de um jovem inquieto e desordeiro na cidade do Rio de Janeiro; os usos e costumes das classes desfavorecidas no Rio do inicio do século XX.
  • Enredo: Leonardo, o personagem principal, é filho de Leonardo Pataca e Maria Hortaliça, que viveram em Portugal num navio. Já no batizado do menino aparece um policial, o major Vidigal. Por infidelidade de sua mãe, que foge com o capitão de um navio de volta a Portugal, o pai, quando Leonardo tinha 7 ano, dá-lhe um pontapé e o abandona. É criado por um barbeiro, seu padrinho e visinho, que o trata com carinho, matricula-o numa escola e quer torná-lo padre. Depois de uma serie de peripécias, no final Luisinha, antiga namorada, fica viúva e casa-se com Leonardo que resolveu empregar e tomar posse da herança deixada pelo barbeiro, seu padrinho.
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Bernardo Guimarães (1825 – 1884)

Nasceu em Ouro Preto (MG). Fez os primeiros estudos em Uberaba, Ouro Preto e Campo Belo. Transferiu-se para São Paulo em 1847 para cursar Direito, época em que conhece Álvares de Azevedo e sofre influencia literária. Torna-se juiz municipal em Catalão (GO). Em 1867 volta para Ouro Preto, casa-se fixa-se no magistério.

Suas obras marcantes são:

O seminarista é a historia de Eugenio que, mesmo depois de se tornar padre, permanece apaixonado por sua namorada de infância de nome Margarida. No final, Eugenio enlouquece e Margarida morre.

A escrava Isaura narra os problemas de uma escrava que é perseguida por seu senhor – Leôncio – e acaba encontrando o amor no casamento com Álvaro, um jovem abolicionista que a liberta. O romance tem também características regionalistas, pois mostra as paisagens do planalto central onde o autor ambientou as ações.
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Frankin Távora (1842- 1888)

Nasceu em Baturité (CE), de onde saiu para morar em Pernambuco. Lá formou-se em Direito em 1863. Foi advogado e participou da política em vários postos, inclusive como deputado.
 
Como nacionalista, tentou criar uma “literatura do Norte”, à parte em relação à outra – a do Sul, pois acreditava na força do regionalismo que tornava o Norte mais imune à influencia estrangeira.

Obra mais expressiva: O cabeleira, de linha colonial e regionalista.
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Visconde de Taunay (1843-1899)








Nasceu no Rio de Janeiro. Formou-se em Letras e em Ciências. Após a Guerra do Paraguai, da qual participou como engenheiro, passou ao magistério a à política, como deputado, depois senador e presidente das províncias de Santa Catarina e Paraná.
 
Seus principais romances: A retirada de Laguna e Inocência.


Inocência passa-se em Mato Grosso e conta a vida de Pereira e sua filha Inocência, noiva de Manecão, e também de Inocência, no estilo romântico dos finais infelizes.
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José de Alencar (1829-1877)


Nasceu em Mecejana (CE), filho da aristocracia rural. Seu pai foi senador. Fez direito em São Paulo e Olinda. Foi redator-chefe do Diário do Rio de Janeiro, deputado e ministro da justiça. Candidato a senador, foi preferido por D.Pedro II, passando à oposição. 


Nacionalista, conservador, antiabolicionista. Medievalista, defendia o principio da hierarquia. Sua obra indianista propõe a união entre o branco colonizador e o índio colonizado. Essencialmente prosador, escreveu livros caracteristicamente românticos.


Morreu tuberculoso, no Rio.


Foi o nosso primeiro grande romancista, tanto em qualidade quanto em volume de obra.


Filho da classe dominante, seu olhar sobre o Brasil daquela época mostra essa condição e mostra o lado político do colonizador. Seus personagens urbanos são todos da alta burguesia carioca, refletindo seus problemas. Nas obras indianistas, ainda que glorifique o índio, cria personagens meio europeurizados.


Usa linguagem muito descritiva e romantizada, caracterizada pelo uso excessivo de adjetivos. Seus principais romances são os urbanos e os indianistas.


Obras: Romances urbano-sociais: Cinco minutos (1856), A viuvinha (1860), Lucíola ( 1862), Diva (1864), Senhora (1875).


Romances históricos: As minas de prata (1865), Guerra dos mascates (1873).


Romances indianistas: O guarani (1857), Iracema (1865), Ubirajara (1874).


IRACEMA (1865), de José de Alencar
· Gênero: romance histórico indianista
· Foco narrativo: 3ª pessoa onisciente
· Tempo: inicio do século XVII (época colonial)
· Espaço: Nordeste brasileiro ( onde ficam hoje os estados do Ceará e Pernambuco).
· Personagens: do tipo heróis X vilões. Martim (branco português); Iracema (índia tabajara); Poti (índio pitiguara); Moacir (mestiço, filho de Martim e Iracema); Caubi (irmão de Iracema); Araquém ( pajé da tribo tabajara).
· Temas: o nascimento de um novo país (Brasil); a simbolização da conquista americana pelo homem branco; confronto de raças culturais; idealização da natureza.
· Enredo: a história de Martim, 1º colonizador português no Ceará, e Iracema, jovem índia tabajara filha de Araquém, pajé da tribo tabajara.
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SENHORA(1875), DE José de Alencar
· Gênero: romance urbano de costumes (alta busguesia)
· Foco narrativo: 3pessoa onisciente
· Tempo: século XIX, reinado de D.Pedro II.
· Espaço: ambiente da Corte no Rio de Janeiro. Parte do livro em ambiente de província e interior (mocidade de Emilia, narrador em flash-back).
· Temas: a ascensão social através do casamento; o interesse financeiro por detrás do casamento; a vingança amorosa; o amor.
· Enredo: O romance é dividido em quatro partes: O preço; quitação; posse; resgate, trazendo já nesses subtítulos a conotação financeira e comercial que perpassa a história.
· Personagens principais:
· Aurélia Camargo - filha de Emilia e Pedro, moça de 18/19 anos, bonita e de grande determinação.
· Fernando Seixas – moço de classe baixa, chega à Corte para tentar sua ascensão social, e o casamento por interesse era sua chance.
· Características do romance e outras anotações: Senhora inscreve-se entre as últimas obras de José de Alencar, da linha de romances urbanos, época em que está consolidada a carreira do escritor. Nessa altura, já se delineou o projeto literário de Alencar em busca de uma nacionalidade brasileira e de uma linguagem própria que refletisse e fundamentasse essa nacionalidade. Projeto talvez ambicioso demais para um só escritor, ainda mais para esse filho da aristocracia rural que trazia no sangue um natural conservadorismo político.


Assim, Senhora, complementando esse projeto, embora não traga grandes avanços no campo da criação literária, enfoca o problema do interesse financeiro nos casamentos da época.


No final feliz proporcionado pela história, o bem (burguês) prevalece sobre tudo, para preservar as coisas nos seus “devidos lugares”. O heroi Fernando Seixas, que a principio mostrara um caráter duvidoso, é levado cuidadosamente pela narração a se converter à bondade de caráter, a fim de “merecer” a felicidade que o esperava nos braços de Aurélia. E assim foram felizes para sempre na alta camada da sociedade em que viviam.


O livro não mexe nos problemas sociais da época, limitando-se a mostrar personagens secundários inevitavelmente problemáticos no que concerne ao caráter que a moldura do enredo torna sempre passiveis de retoques e correções.


Ficam os protagonistas num patamar sublimado e dentro de que desfruta na literatura brasileira como um dos grandes iniciadores da nossa prosa de ficção, pelos méritos de suas múltiplas criações literárias.
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 BIBLIOGRAFIA


BOSI. Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo.Cultrix, 2000.


CANDIDO, Antonio. Iniciação à literatura brasileira. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004.


CEREJA, William Roberto e MAGALHÃES, Thereza Cochar. Literatura brasileira. São Paulo: 
Atual, 1995.


CITELLI, Adilson. Romantismo. São Paulo: Ática, 1986.


COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. 6 vol. Rio de Janeiro: Editorial Sul-Americana, 1968.


BRANCO, Joaquim. Literatura brasileira IIII: Romantismo. Cataguases: Funcec, 2009.


FARACO, Carlos Emílio e MOURA, Francisco Marto. Língua e Literatura. 3. ed. São Paulo: Ática, 1999.


CEREJA, William Roberto e MAGALHÃES, Thereza Cochar. Português: Linguagens: ..2 vol. São Paulo: Atual, 2005.


SARMENTO, Leila Lauar. Português: literatura, gramática, produção de texto. volume único. São Paulo: Moderna, 2004


SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira. 6ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.

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SOUZA, Diego Lucas Nunes de. Literatura: Romantismo. Apostila de língua Portuguesa - Módulo II.  Cataguases, 2010, p. 15 - 23.  

7 comentários:

Cristiane disse...

Parabéns pelo blog,
Seu espaço está muito rico e com excelentes links para ampliar as informações.
Vou usar seu blog com meus alunos como consulta extraclasse.
Abraço,
Cristiane

Gabriela disse...

Passando pra dizer oi. Adorei o blog; até adicionei nos meus favoritos : P

Bjo bjo.

http://heygnomos.blogspot.com/

Anônimo disse...

Encontrei muita riqueza literária por aqui. Espaço bem investido!

Cristine disse...

O texto foi muito esclarecedor, muito obrigada!

Eliane Leite disse...

Olá! Fiquei muito feliz ao encontrar seu blog. Muito bem organizado, assim, facilita a compreenção.
Abraços,
Eliane(3º sem letras Unigran-Lisboa)

neuzimar lima alves disse...

Parabés pela postagem, me ajudou bastante estou mais confiante no aprendizado dos alunos. Obrigada, amei!

neuzimar lima alves disse...

Foi super esclarecedor, parabéns e amei!

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