4 de jun de 2011

Um elogio ao erro (entre aspas)



Na literatura, na linguística, na pedagogia, no teatro, na música, no latim, na Bíblia, normas culta e inculta, faladas e escritas, já fizeram as pazes há muito tempo


Arnaldo Bloch e Hugo Sukman



A questão já estava resolvida pela literatura, pelo povo e pela ciência linguística. De repente, chegou o famigerado LIVRO DO MEC (“Por uma vida melhor”, para turmas de alunos jovens e adultos que retornam à sala de aula) e acordou o fantasma adormecido.

Sua autora, Heloísa Ramos, usou um approach (como se diz em português...) ideológico e exemplos antiestéticos para, contudo, apenas repetir o consagrado e ululante: há diferenças entre a língua falada e a língua escrita; ambas se intercomunicam, negam-se ou convergem; essa dinâmica se reflete na vida em sociedade; o errado de hoje pode ser o certo de amanhã; não é proibido pelo Código Penal falar ou escrever o que quer que seja; mas há uma norma culta a seguir, cujos efeitos para quem não a conhece nem utiliza podem ser fatais numa entrevista de emprego, numa prova, na vida. Isso em alguns parágrafos. Pois, no restante, dedica-se a ensinar que, em sala de aula, a norma culta é a norma e ponto final. Sociolinguistas como Sílvio Possenti, da Unicamp, consideram o livro até conservador por insistir demais nisso. No Manifesto Pau Brasil, de 1922, marco do modernismo, Oswald de Andrade proclama: “Uma língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros”. O modernismo, aliás, do qual NELSON RODRIGUES é um prócer, é isso: a incorporação do atual, do cotidiano, da fala da rua. Nessa linha Nelson explicava o porquê da modernidade da peça “Vestido de noiva” .

“Meu teatro
trouxe a língua
da rua, do
botequim para
os palcos até
então lisboetas
do Brasil”

Isso, no nosso mundo neolatino, vem pelo menos desde São Jerônimo, com a sua Vulgata, a primeira versão em latim da Bíblia, que usa o falar cotidiano de Roma e das províncias latinizadas, pois ninguém entendia o latim culto, elegante, de Cícero. Nesse processo, o bom Jerônimo é obrigado a criar, na língua escrita, cerca de 600 neologismos no livro que seria base não apenas da propagação da fé cristã (antes coisa de doutor) como de todas as línguas neolatinas. A Bíblia de Gutenberg é uma versão revisada da Vulgata. Ou seja, as línguas neolatinas — como o português — já são degenerescências do latim, são latim “errado”, línguas do vulgo, da gentalha, da ralé. O que não é nenhuma vergonha, muito pelo contrário: é motivo de orgulho! Pelo menos para o velho BILAC, o Olavo: o homem que de trato tão refinado com a língua invejava o ourives quando escrevia:

“Última flor
do Lácio,
inculta e bela”

Dissecando o citadíssimo verso de Bilac: “Última”, a mais jovem (rebelde?) ou mais remota (a mais distante do Lácio, rumo ao Ocidente, a partir de Portugal e derramando-se literalmente no mar); “flor do Lácio”, a filha bastarda, degenerada, do latim; “inculta”, popular, torta, vadia por natureza; e, mesmo assim, ou pour cause, bela. Como uma língua definida dessa forma pelo seu esteta supremo, severo devoto do Parnaso, pode almejar ou mesmo admitir ser dominada apenas por uma norma culta? Nessa esteira, os paradoxos vão desfilando com um jeito de piada, num cordel surrealista. Machado de Assis, por exemplo, usa “o pessoal gostaram”. Está na norma culta, mas, por soar errado, não faltarão pretensiosos desavisados achando que é erro. A literatura e a música brasileiras sempre trataram essa questão de maneira rica e divertida, com toda a delicadeza que a língua portuguesa, nossa pátria (no grande achado de Pessoa), merece. Nessa seara, o Brasil já resolveu esse dilema entre a norma culta e as variantes há tempos. NOEL ROSA ensinou:

“Mulata vou
contá as minhas
mágoa/Meu
amô não tem
erre/Mas é amô
debaixo d’água”

As críticas ao livro e a reação às críticas ressuscitaram uma dicotomia certo-errado que já estava enterrada também pela pedagogia: há 150 anos praticamente toda ela, de Piaget a Freinet ou Paulo Freire, gira em torno da ideia de que não se podem desprezar os saberes de cada indivíduo que entra em sala de aula. O analfabeto no caixa do armazém pode não ter ido à escola, não saber escrever, mas ele se comunica. E seguramente sabe matemática. Isso não pode ser desprezado, como se ele estivesse começando do zero. E certas particularidades de seu raciocínio adquirido no armazém serão, eventualmente, também aprendidas pelo professor e compartilhadas. PAULO FREIRE, o educador por excelência, dizia:

“Um mestre é aquela
pessoa que, de
repente, aprende”

O debate que envolve, além dos jornais e dos linguistas, também juristas, políticos e artistas ampliou-se, mas deixou a impressão de que se resumiu aos espectros esquerdadireita/  pobres-ricos/elites-povo, noção já superada há muito tempo pelos mais
aguerridos defensores da língua. O modernista de direita MANUEL BANDEIRA, por exemplo, exalta todas as palavras, “sobretudo os barbarismos universais”, enquanto o modernista de esquerda OSWALD DE ANDRADE observa:

“Dê-me um cigarro, diz a
gramática/do professor e
do aluno/e do mulato
sabido/mas o bom negro
e o bom branco/da
nação brasileira/dizem
todos os dias/deixa
disso,camarada/me dá
um cigarro”

O grande CARTOLA foi até  ridicularizado quando escreveu, no lindo samba “Fiz por você o que pude”:

“Perdoa me a
comparação/Mas fiz
uma transfusão/Eis
que Je sus me
premeia/Surge outro
compositor/Jovem
de grande
valor/Com o mesmo
sangue na veia”

O premeia, no lugar do convencional “premia”, era um artifício do poeta para a rima com veia, claro. Mas o compositor que escrevia versos como “queixo-me às rosas” (com todas as ênclises e crases devidas) foi contrariado pelos cultos de plantão. Ele insistia, contudo, no premeia, dizendo que estava certo, e assim gravou e consagrou a música, para deboche geral em relação ao “erro”. E não é que mais tarde estudiosos encontram o premeia em texto de ninguém menos do que PADRE ANTÓNIO VIEIRA, um dos maiores criadores da língua portuguesa?

“Assim castiga, ou
premeia Deus”

Na última mudança ortográfica a palavra consta com essa variante, por ser usada em vários países que falam a língua de Camões. Ou seja, tentaram usar a norma culta para mudar Cartola, mas seu verso sobreviveu, corroborado por Vieira e pela língua falada. É claro que a norma culta confere poder e deve ser “distribuída” democraticamente para que todos tenham as mesmas oportunidades. Mas, a depender de como isso é feito e de o quanto se têm em conta os diversos falares, os efeitos colaterais podem ser graves e derivar para uma Síndrome de LADY KATE, personagem interpretada pela genial Katiuscia Canoro: na certeza de “falar errado”, ela tenta falar certo e acaba  misturando os canais. O resultado é o bordão:

“Grana eu tenho,
só me falta-me o
glamour”

As histórias “bem contadas” que o cineasta Eduardo Coutinho foi buscar no sertão paraibano para fazer “O fim e o princípio” (2005) são narrativas de velhos analfabetos, bem construídas e até cultas (no sentido não só de seguir regras análogas à norma, mas da harmonia advinda da invenção poética da tradição oral). Além disso, a não consciência do erro e o isolamento dos meios urbanos “educados” produzem, nesses indivíduos, uma verve e uma segurança que afetam a Expressividade do discurso. Em contrapartida, tem muito bacharel por aí (ops, Drummond, tinha uma pedra no meio do caminho...), que, do alto de seu nível superior, fala português confuso, escreve errado e
tem dificuldades de compreender um raciocínio mais complexo. Alheio a isso, desde o século retrasado o povo brasileiro resiste a fazer o plural aparentemente correto para o “real” quando ele é moeda. Antes era o mil “réis”, e agora o dez real, o cem real, assim mesmo, sem concordância. O real, para o brasileiro, só é plural quando significa novas realidades possíveis, realidades alternativas, reais, enfim. Afinal, como dizia GUIMARÃES ROSA, que inventou o que já fora desinventado,

“O senhor sabe:
pão ou pães é
uma questão de
opiniães”

Nessa discussão puramente ideológica, desconfiou-se de que o MEC quisesse impingir aos pobres alunos uma gramática, digamos, lulista. O expresidente Luiz Inácio Lula da Silva decerto é um grande e inventivo orador, não há dúvida, e na sua fala até resgata vocábulos populares esquecidos, como maracutaia. Isso, é claro, não dá direito
a Lula de menosprezar a educação formal, como fez (e faz) diversas vezes. Mas seus “erros” de português também não dão aos seus detratores o argumento para desqualificação do seu discurso. O medo do vulgar e do errado mesmo quando ele é porta-voz de boa expressão tem na anedota que segue uma mostra de como pode atingir e devastar mesmo o texto correto. Pois consta que uma das esposas de VINICIUS DE MORAIS implicou com os “beijinhos” e os “peixinhos” de “Chega de saudade”, achando-os por demais  pedestres. “Pô, Vinicius, beijinho e peixinho é demais...” Um dos maiores sonetistas da língua brasileira se deu ao trabalho de responder à patrulha:

“— Ah, deixa de
ser sofisticada...”

Resultado: nasceu uma peça revolucionária, das mais radicais da arte brasileira, transformadora de toda a forma de fazer letra e música, sem deixar de ser extremamente popular, no sentido da criação e no da difusão. A vulgar “Chega de saudade” é hoje um
clássico. Vejam que coisa.



BLOCH, Arnaldo; SUKMAN, Hugo. Um elogio ao erro (entre aspas). O GLOBO, Rio de Janeiro, 28 de maio de 2011. Caderno O país, p. 14.  

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