Conseguir uma boa nota na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) exige mais do que conhecer a estrutura de um texto dissertativo-argumentativo ou memorizar expressões para iniciar os parágrafos. O candidato precisa demonstrar que sabe defender um ponto de vista, selecionar informações pertinentes e desenvolver um raciocínio capaz de sustentar aquilo que afirma.
Uma maneira de compreender como isso acontece é examinar redações que receberam nota 1000, observando as escolhas feitas pelos participantes e a função dos argumentos apresentados. A leitura desses textos permite identificar diferentes estratégias de desenvolvimento e perceber como conhecimentos históricos, filosóficos e sociológicos podem contribuir para uma discussão.
Analisaremos quatro redações do ENEM 2023, reproduzidas e comentadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) na Cartilha do Participante de 2024. Todas abordam o tema “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”, mas apresentam maneiras distintas de construir a argumentação.
Embora o ENEM 2026 tenha sua própria cartilha, as redações de 2023 continuam úteis para compreender as estratégias argumentativas presentes em textos que receberam nota máxima.
O que observar nas redações nota 1000?
Ao examinar uma redação bem avaliada, o primeiro cuidado é identificar a relação entre a tese apresentada na introdução e os argumentos desenvolvidos nos parágrafos seguintes. Uma referência histórica, uma informação estatística ou a menção a determinado pensador só contribuem para o texto quando ajudam a explicar o problema discutido.
A Competência III da redação do ENEM avalia a capacidade de selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista. Isso significa que apresentar conhecimentos sobre o tema não basta. O candidato precisa demonstrar como esses elementos se relacionam e por que sustentam sua posição.
As quatro redações selecionadas permitem observar essa exigência em situações concretas.
Amanda Teixeira Zampiris: dois argumentos relacionados, mas desenvolvidos separadamente
Na introdução de sua redação, Amanda Teixeira Zampiris menciona a obra Brasil, País do Futuro, de Stefan Zweig, para estabelecer um contraste entre a expectativa de desenvolvimento nacional e a permanência de problemas sociais. Entre esses obstáculos, situa a invisibilidade do trabalho de cuidado realizado por mulheres.
A participante apresenta duas causas para a continuidade do problema: a negligência governamental e a permanência histórica de práticas discriminatórias. Cada uma será examinada em um parágrafo do desenvolvimento.
No primeiro argumento, Amanda recorre ao pensamento de Thomas Hobbes para discutir a responsabilidade do Estado pelo bem-estar da população. A referência serve de fundamento para questionar a ausência de medidas que assegurem melhores condições às mulheres responsáveis pelo cuidado de crianças, idosos e pela realização de tarefas domésticas.
No parágrafo seguinte, a autora desloca a discussão para a formação histórica da sociedade brasileira. A menção a Claude Lévi-Strauss acompanha a explicação sobre a permanência de relações patriarcais que associam determinadas atividades ao universo feminino.
Os dois argumentos tratam da mesma situação, mas investigam aspectos diferentes. O primeiro examina a atuação do poder público; o segundo procura explicar a origem histórica da desigualdade. A divisão permite desenvolver o tema sem simplesmente repetir que o trabalho de cuidado é desvalorizado.
A estratégia de Amanda mostra que dois fatores relacionados podem ser desenvolvidos separadamente sem comprometer a unidade do texto, desde que cada parágrafo apresente uma explicação própria e contribua para sustentar a tese.
Gabriela Larissa de Souza Gurgel: a relação entre dados estatísticos e interpretação social
Gabriela Larissa de Souza Gurgel inicia sua redação com uma referência ao pensamento de Hannah Arendt, utilizando a ideia de naturalização de problemas sociais para introduzir a invisibilidade do trabalho de cuidado.
A participante identifica o machismo estrutural e a omissão estatal como fatores que contribuem para a permanência dessa situação.
No primeiro parágrafo de desenvolvimento, ela recupera a organização patriarcal da sociedade brasileira durante o período colonial e relaciona esse processo à distribuição desigual das tarefas domésticas. Para sustentar a discussão, apresenta dados atribuídos ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), segundo os quais, em 2019, as mulheres dedicavam mais que o dobro do tempo semanal dos homens às atividades de cuidado.
A informação estatística tem uma função definida: demonstrar que a desigualdade discutida não se limita a uma percepção individual. O dado é incorporado a uma explicação sobre a divisão social do trabalho e a persistência de expectativas relacionadas aos papéis femininos.
No segundo argumento, Gabriela utiliza o conceito de instituições zumbis, associado a Zygmunt Bauman, para questionar a atuação do Estado diante das condições enfrentadas pelas mulheres responsáveis por essas atividades.
A redação permite observar como informações de naturezas diferentes podem ser articuladas em um mesmo projeto argumentativo. O dado estatístico contribui para demonstrar a desigualdade, enquanto a referência sociológica auxilia na interpretação da responsabilidade institucional.
Ao empregar estatísticas em uma redação, o candidato precisa conhecer a origem da informação e compreender o que ela efetivamente demonstra. Um percentual isolado não substitui a explicação. Seu valor argumentativo depende da relação estabelecida com a tese defendida.
Ana Luiza Teodoro Coutinho Loureiro: o repertório literário como ponto de partida
Ana Luiza Teodoro Coutinho Loureiro começa sua redação mencionando um conto de Laços de Família, de Clarice Lispector. A personagem Ana, envolvida com as responsabilidades domésticas e familiares, é aproximada da realidade de mulheres brasileiras cujo trabalho de cuidado permanece desvalorizado.
A referência literária introduz o problema e estabelece uma relação entre a experiência representada na ficção e uma questão social contemporânea.
No desenvolvimento, a participante discute inicialmente a associação entre feminilidade e cuidado, recorrendo a Simone de Beauvoir para explicar como determinadas expectativas sobre as mulheres são socialmente construídas.
Em seguida, mobiliza reflexões de Byung-Chul Han, presentes em Sociedade do Cansaço, para discutir a valorização econômica de atividades consideradas produtivas e a desvalorização do trabalho de cuidado.
O repertório utilizado não aparece como uma sequência de nomes conhecidos. Cada referência participa de uma etapa do raciocínio: a literatura apresenta uma situação que aproxima o leitor do tema; a filosofia auxilia na discussão sobre a construção dos papéis de gênero; e a reflexão sobre a produtividade contribui para examinar o reconhecimento econômico dessas atividades.
O texto de Ana Luiza oferece um exemplo de como uma obra literária pode ser utilizada na redação do ENEM. A referência não precisa abordar literalmente o tema proposto, mas sua relação com o problema deve ser explicada. Mencionar um livro conhecido, sem estabelecer essa conexão, não produz o mesmo resultado.
Bruno Henrique Alves dos Santos: a articulação entre cinema e conceitos sociológicos
Bruno Henrique Alves dos Santos inicia sua redação com o filme brasileiro Que Horas Ela Volta?, destacando a personagem Val, uma trabalhadora doméstica cuja importância para o funcionamento da residência contrasta com as condições de tratamento e remuneração que recebe.
A situação apresentada no filme permite introduzir a desvalorização do trabalho de cuidado e estabelecer a tese de que o problema está relacionado aos papéis de gênero e às desigualdades enfrentadas por determinados grupos sociais.
No primeiro parágrafo de desenvolvimento, Bruno utiliza o conceito de fato social, de Émile Durkheim, para discutir como a atribuição das atividades de cuidado às mulheres se encontra enraizada na sociedade.
O conceito sociológico contribui para explicar por que uma prática pode continuar sendo reproduzida mesmo quando seus efeitos são desiguais. A associação entre mulheres e responsabilidades domésticas é examinada como resultado de expectativas sociais, e não como uma característica natural.
No segundo argumento, o participante recorre à pesquisadora Carla Akotirene e ao conceito de interseccionalidade. A discussão passa a considerar como diferentes formas de desigualdade podem se combinar nas experiências das mulheres responsáveis pelo trabalho de cuidado.
O segundo parágrafo amplia a análise anterior. Depois de examinar a atribuição social dessas atividades ao feminino, Bruno considera as condições particulares de grupos que enfrentam outras formas de discriminação.
A organização dos argumentos demonstra que o desenvolvimento de uma redação pode avançar por aprofundamento. O candidato começa explicando um aspecto mais amplo do problema e, posteriormente, examina condições que tornam seus efeitos diferentes entre os grupos sociais envolvidos.
Como aplicar essas estratégias em outros temas?
As redações analisadas abordam um mesmo problema, mas seus procedimentos podem ser utilizados em discussões distintas. O objetivo não é reproduzir os argumentos dos participantes, e sim compreender como organizar informações e construir explicações próprias.
Exemplo: os efeitos do calor nas cidades brasileiras
Uma afirmação como “o calor nas cidades está aumentando e prejudicando a população” apresenta um problema, mas ainda precisa ser desenvolvida.
O candidato pode examinar como a redução das áreas verdes e a expansão de superfícies impermeabilizadas contribuem para intensificar o aquecimento urbano. Depois, pode discutir como as condições de moradia e o acesso desigual à infraestrutura tornam determinados grupos mais expostos ao problema.
Os argumentos estão relacionados, mas cumprem funções diferentes. Um explica fatores ambientais associados ao aquecimento; o outro examina a distribuição social de seus efeitos.
Essa organização se aproxima do procedimento observado na redação de Amanda, em que duas causas são desenvolvidas separadamente para sustentar uma mesma tese.
Exemplo: os desafios da proteção de crianças no ambiente digital
Considere a afirmação de que crianças estão expostas a riscos nas plataformas digitais.
Para desenvolver o argumento, seria possível recorrer a pesquisas confiáveis sobre o uso da internet por crianças e adolescentes, desde que os dados sejam identificados corretamente e interpretados conforme aquilo que realmente medem.
Uma pesquisa sobre tempo de utilização, por exemplo, não comprova automaticamente a ocorrência de violência ou exploração. Para discutir esses problemas, seria necessário apresentar informações pertinentes a eles.
O candidato também poderia examinar as responsabilidades das plataformas na moderação de conteúdos e na adoção de mecanismos de proteção adequados à idade dos usuários.
O procedimento se aproxima da estratégia empregada por Gabriela: utilizar informações verificáveis para sustentar uma afirmação e relacioná-las a uma explicação sobre o problema.
Exemplo: a disseminação de informações falsas nas redes sociais
Uma redação sobre desinformação pode partir de uma situação conhecida: conteúdos compartilhados repetidamente acabam adquirindo aparência de credibilidade, mesmo quando não apresentam fontes confiáveis.
O argumento pode ser desenvolvido por meio de uma discussão sobre os mecanismos de circulação de conteúdos nas plataformas digitais e as condições que favorecem sua reprodução.
Uma referência teórica sobre comunicação ou comportamento coletivo poderia contribuir para explicar o fenômeno, desde que fosse pertinente à discussão e corretamente apresentada.
A utilização de repertório seguiria o princípio observado nas redações de Ana Luiza e Bruno: escolher uma referência capaz de esclarecer o problema, em vez de acrescentá-la apenas para demonstrar conhecimento.
O que diferencia o repertório produtivo de uma referência decorativa?
A presença de autores conhecidos, obras literárias ou conceitos sociológicos não garante, por si só, a qualidade da argumentação.
Uma referência é produtiva quando contribui para desenvolver a discussão e está articulada ao ponto de vista defendido. Se o candidato menciona determinado pensador, mas não explica a relação entre suas ideias e o problema apresentado, o repertório permanece pouco explorado.
Também é possível construir argumentos consistentes sem recorrer continuamente a filósofos ou escritores. Exemplos pertinentes, fatos históricos e informações verificáveis podem cumprir essa função, desde que sejam interpretados e relacionados à tese.
A Competência II considera, entre outros aspectos, o uso do repertório sociocultural, enquanto a Competência III avalia a organização e o desenvolvimento dos argumentos. Cada uma possui critérios próprios, embora esses elementos se relacionem na construção do texto.
Por isso, a análise das redações nota 1000 precisa considerar o modo como as referências são utilizadas, e não somente sua quantidade.
O que as quatro redações ensinam?
Amanda organiza a argumentação a partir de duas causas distintas. Gabriela relaciona dados estatísticos à interpretação de um problema social. Ana Luiza utiliza a literatura para introduzir a discussão e articula referências filosóficas ao desenvolvimento. Bruno combina uma obra cinematográfica com conceitos sociológicos para examinar diferentes aspectos da desigualdade.
As estratégias variam porque cada participante constrói um percurso próprio para defender sua tese. O que aproxima essas redações é a relação estabelecida entre os argumentos e o problema discutido.
Ler textos nota 1000, portanto, não significa procurar fórmulas para reproduzir na prova. O aprendizado está em reconhecer que a consistência argumentativa não depende do acúmulo de referências, mas da função que cada uma desempenha no raciocínio desenvolvido. Nas redações analisadas, essa função varia conforme o problema discutido, o repertório mobilizado e a maneira como cada autor organiza seus argumentos.
Referências
BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A Redação do Enem 2024: Cartilha do Participante. Brasília: Inep, 2024.
BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). A Redação do Enem 2026: Cartilha do Participante. Brasília: Inep, 2026.
As redações analisadas foram produzidas no ENEM 2023 e publicadas, acompanhadas de comentários pedagógicos, na cartilha de 2024. Os exemplos sobre calor urbano, proteção de crianças na internet e desinformação foram elaborados para fins didáticos.


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